Aydano André Motta
São 57 quilômetros a separar a quadra da União de Maricá da Passarela do Samba, endereço da materialização do sonho mais precioso da escola noviça. Mas vale a viagem. Numa ascensão meteórica, o grêmio, fundado há apenas uma década, aterrissará no Grupo Especial em 2027, após sagrar-se campeã da Série Ouro, a segunda divisão. No bojo, vai alargar o mapa do Carnaval carioca, mais metropolitano a cada ano.
Com o enredo “Berenguendéns & balangandãs”, a vermelho, ouro e branco marcou 269,4 pontos nas notas do júri, três décimos a mais do que o vice-campeão Império Serrano, e carimbou o passaporte para o olimpo do paticumbum. O clímax de uma trajetória que nasce de projeto político voltado à cultura popular e agora, vai alçar seu voo mais alto.E fará companhia a uma vizinha que ratificou seu poder entre as grandes. A Unidos do Viradouro exaltou seu mestre de bateria, Ciça, e ganhou seu terceiro Carnaval nas últimas cinco edições (fora campeã em 2020 e 2024). O grêmio do Barreto lidera o ranking da Liga Independente das Escolas de Samba, graças à conjugação de estrutura, artistas de primeira e valorização de sua comunidade.
O retrospecto recente da vermelha e branca e a vitória da Maricá atestam: o epicentro da excelência carnavalesca mudou de lado na Ponte Rio-Niterói
A reunião de alguns dos melhores profissionais do mercado da folia – o carnavalesco Tarcisio Zanon; o casal Priscilla Mota e Rodrigo Negri, da comissão de frente; o diretor de Carnaval, Alex Fab; o cantor Wander Pires; a diretora de comunicação, Simone Fernandes; o mestre-sala Julinho Nascimento e a porta-bandeira Rute Alves; a musa Bellinha Delfim, entre outros, incluindo o próprio Ciça – com um sentimento comunitário turbinado ao máximo deu numa escola forte e orgulhosa de si mesma. A sustentá-la, uma estrutura sem paralelo entre as grifes da folia. Basta visitar o impecável barracão na Cidade do Samba para entender o que hoje separa a Viradouro das outras.
O retrospecto recente da vermelha e branca e a vitória da Maricá atestam: o epicentro da excelência carnavalesca mudou de lado na Ponte Rio-Niterói. (Aliás, na década, somente uma escola carioca foi campeã: a Imperatriz, em 2023.) No caso da estreante no Grupo Especial, o sucesso ligeiro consagra evolução construída tijolo por tijolo, num desenho lógico. No próximo 26 de maio, a escola completa 11 anos de sua criação, a partir de iniciativa do prefeito Washington Quaquá, que serviu como retomada. O Carnaval na cidade havia acabado em 2008.
A estreia na Série C (hoje chamada Bronze), no desfile de 2016, terminou em promissor quarto lugar. O acesso à terceira divisão veio em 2018, com o enredo que homenageava o centenário do Cordão da Bola Preta. Mais cinco anos se passaram até o vice-campeonato, em 2023, que conduziu à terra prometida dos bambas, a Sapucaí.
A chegada à Série Ouro se deu com status de favorita, porque a bolha do Carnaval reconheceu a consistência do projeto maricaense. A escola contratou diversos profissionais do Grupo Especial, como o diretor Wilsinho Alves (Salgueiro); o carnavalesco André Rodrigues (Portela); o coreógrafo da comissão de frente Patrick Carvalho (Imperatriz); e o casal de mestre-sala de porta-bandeira Fabrício Pires (ex Mocidade e Portela) e Giovana Justo (ex Mangueira e Unidos da Tijuca).
O quarto lugar evidenciou certeza mágica da festa: a avenida só parece reta a olho nu; esconde curvas, lombadas, atalhos e segredos. Levou (pouco) tempo até a Maricá aprender os caminhos. “Investimos no sentido de pertencimento, na formação de uma comunidade da escola”, explica o presidente Matheus Santos. “Sabíamos que um chão forte seria essencial para conseguirmos nosso objetivo”. Além disso, a escola construiu o melhor barracão da Série Ouro, num investimento superior a R$ 8 milhões.
Para 2025, a contratação do carnavalesco Leandro Vieira sedimentou a ambição. Tricampeão no Grupo Especial, o artista – dos mais badalados da festa – assinara a ascensão de Imperatriz Leopoldinense (2020) e Império Serrano (2022). O quinto lugar com o criativo desfile “O cavalo de Santíssimo e a coroação de Seu Sete!” não desanimou os componentes; ao contrário, fez dobrar a aposta, até chegar o desfile campeão.
Mas sem sofrimento não seria Carnaval. Um dos lindos carros da Maricá atravessou a pista apagado – e no fim, a pressa em levar a última alegoria até a dispersão ocasionou acidente que feriu três componentes, um deles gravemente. A escola acabou estourando o tempo de desfile, recebendo punição de dois décimos.
Na apuração das notas do júri, pareceu batida logo no início, ao ficar bem atrás na classificação. Mas se recuperou ao gabaritar os quesitos comissão de frente, fantasias, enredo, bateria, mestre-sala e porta-bandeira, samba-enredo e harmonia. Após a disputa ponto a ponto com Império Serrano e Unidos de Padre Miguel, o sonho virou realidade: Maricá campeã da Série Ouro.
A primeira reação foi de euforia: o prefeito Quaquá (também presidente de honra da escola) decretou ponto facultativo na cidade, no dia seguinte à apuração, e no domingo (22 de fevereiro), teve desfile dos campeões na paradisíaca Praia de Itaipuaçu. Passada a festa, pés no chão: os dirigentes têm consciência de que a briga no Grupo Especial é muito pesada e, no primeiro ano, vão buscar a sobrevivência entre as grandes.
Passada a festa, pés no chão: os dirigentes da Maricá têm consciência de que a briga no Grupo Especial é muito pesada e, no primeiro ano, vão buscar a sobrevivência entre as grandes.
“Estamos chegando devagarzinho, mas vamos fazer um belíssimo desfile, como deve ser no Grupo Especial. Sem nenhuma pretensão de título”, antecipa Quaquá. “Vamos de fato investir cerca de R$ 30 milhões, mas não no desfile, e sim em cursos profissionalizantes para transformar nossa cidade em um polo econômico do Carnaval”.
O prefeito e presidente de honra pensa além das fronteiras brasileiras. “Queremos contribuir com a internacionalização da nossa festa, levando a União de Maricá às principais cidades do mundo, sempre com uma coirmã junto. Nossa intenção é contribuir com o grande trabalho do presidente da Liesa, Gabriel David, pelo Carnaval, o grande soft power brasileiro. Mas vamos chegar pisando nesse chão devagarzinho”.
A Maricá pode ser caçula, mas está aprendendo rápido a andar no passo seguro dos bambas.











Um comentário
Comentários estão fechados.