Caroline Rocha
Os outdoors à beira da estrada funcionam como uma prévia. Antes mesmo de cruzar o portal de boas-vindas, o visitante já entende o tom que o aguarda na cidade: em Miguel Pereira, tudo é atração (ou ao menos leva nome de atração) quase sempre antecedido por superlativos. É “a maior”, “a melhor”, “a primeira” do estado, da América Latina e até do mundo. Localizada na Região Serrana do Rio de Janeiro, o município vive uma revolução turística. Em pouco mais de três anos, com investimentos robustos no setor, transformou-se em um dos cases mais importantes do estado.
A viagem a partir da capital é parte da experiência. A estrada serpenteia a Serra, atravessa túneis naturais formados por ipês que, no início do ano, florescem e tingem de amarelo até 120 km de pista. Ao chegar, o contraste: a calmaria típica do interior convive com uma infraestrutura pensada para receber os turistas.
O clima é ameno — “o terceiro melhor do mundo”, anunciam banners. De dia, o sol convida a ocupar os parques, ruas e feiras. À noite, a chuva costuma dar o ar da graça, mas a falta de uma vida noturna intensa faz com que o mau tempo pese pouco na programação.
O principal cartão-postal é a Terra dos Dinos, “o maior parque temático de dinossauros do mundo”. São 1,4 milhão de metros quadrados de Mata Atlântica e mais de 40 réplicas dos seres pré-históricos em tamanho real distribuídas ao longo de uma trilha. Monitores encenam pequenas intervenções no percurso e sustos calculados são arrancados dos visitantes independentemente da idade — embora, para muitos, o maior terror sejam as centenas de mosquitos quando se embrenha na mata.
A grandiosidade anunciada não para por aí. O parque abriga também “a maior tirolesa da região”, com mais de 300 metros de extensão e trechos que chegam a 100 metros de altura, além do “maior trenó de montanha da América Latina”, com 1,2 quilômetro de descida e velocidade que pode alcançar 50 km/h.
Boa parte do comércio do Centro orbita em torno do desejo pelos dinos: chaveiros, panos de prato, pelúcias e todo tipo de lembrança temática. Há até um “T-REXtaurante”, com um dinossauro gigante na fachada. Este fica localizado na “Rua Coberta”, nada além de um centro comercial com outros três restaurantes e um cinema. Há ainda uma “Rua Torta”, nada além do que o nome promete: uma via com algumas curvas acentuadas.
No Calçadão do Grawatta, inaugurado em outubro em 2022, o Espaço do Artesão reúne cerca de 30 barraquinhas. Por lá, o crochê toma conta quase que na mesma proporção que os amados dinos (que também ganham versões em crochê, claro).
Ao centro do calçadão, uma pequena capela divide espaço com um chafariz e a já clássica estrutura “Eu amo”, parada obrigatória para fotos. Ali perto, um museu compacto conta a história da região e a formação do município, impulsionada sobretudo pelo ciclo do café. E, para que o discurso de grandeza não perca o fôlego, um nome de peso aparece: em 1965, Luiz Gonzaga compôs ao lado do filho Gonzaguinha o forró “Boi Bumbá – A Partilha do Boi”, cuja letra faz referências a personagens locais.
Cerca de duas décadas depois, chegou a locomotiva na qual hoje funciona a Maria Fumaça, único trem turístico do Estado. A estrada de ferro que originalmente ligava Japeri a Três Rios como rota de distribuição de café, agora transporta crianças, casais e famílias em um passeio até o distrito ao lado, Governador Portela. Na ida, um show de saxofone com clássicos da MPB. Na volta, uma apresentação de um “marquês”, que conta a história da cidade.
Uma das placas explica: “o trem foi o mote que tornou as vilas da Estiva, antigo nome de Miguel Pereira, e Portela, conhecidas e atraentes para uma plêiade de famílias e investidores interessados em explorar as belezas e as riquezas da hoje chamada Serra Azul. Resta agora, no município, uma herança valiosa deixada pela ferrovia: algumas estações de embarque e, em especial, dois admiráveis e imponentes viadutos em ferro e aço importados da Europa.”
Entre outras pequenas atrações, a cidade também conta com a nova ponte do Lago Javary, que ganhou uma cascata iluminada, parque Aventura Animal, Pórtico Abraham Medina e Serra Radical (um parquinho gratuito para adultos e crianças).
Há ainda a promessa de mais construções com slogans superlativos: a maior Bíblia do mundo, um parque no qual irá nevar o ano todo e outro que será o maior parque de luzes da América Latina.
Em meio a tantas promessas grandiosas, Luiz César, que já mora na cidade há mais de 30 anos promete algo ainda melhor no qual corre-se até o risco de ficar “mal acostumado”: “Aqui é uma paz. Você vai no mercado e deixa a chave e o capacete na moto. A gente tem alguns atrativos, coisas maiores, estão falando de trazer museu de cera, parque de neve,… mas aqui tem um diferencial que não tem preço: você pode ficar à vontade. É uma cidade que abraça quem chega. Quem vem à Miguel Pereira uma vez é quase impossível não voltar”.










