Bruno Agostini
Inaugurado há cerca de três meses, o restaurante Côt Parrilla tem nome que remete à Argentina, e ao modo platense de assar carnes. Malbec se chama Côt em algumas regiões da França, e parrilla não requer explicações, certo?
Apesar dessa clara alusão, existe uma proposta inédita por aqui: trazer receitas asiáticas e seus temperos, especialmente da Coreia, para essa churrascada platense, onde podemos perceber ainda o cuidado com a carta de drinques e com o serviço de vinhos.
É uma fórmula bem azeitada que me parece pronta para o sucesso, que já se reflete em filas nos fins de semana e posts bombados nas mídias sociais, principalmente o Tik Tok, onde a casa vem viralizando, porque a comida é muito bonita de se ver – mas, de comer (que é o que realmente importa) ainda mais.
Eu fui um desses que fiquei instigado ao ver fotos e vídeos de lá, quando pude identificar uma inspiração evidente: um restaurante asiático de carnes que vem fazendo sucesso em Buenos Aires, com muitos brasileiros entre os seus principais propagadores: o Niño Gordo; que possivelmente você já viu no Instagram. Tenho vontade de ir.
Buenos Aires não é tão perto assim, mas o Leblon é logo ali, a poucas estações do metrô de onde moro, em Copacabana. Que bom! Vou matar essa vontade.
Assim, na última sexta, como dizia, estive lá para um longo almoço, que começou 12h30 e terminou por volta das 17h. Tivemos tempo de provar muita coisa, com foco em entradas e sanduíches: deixei as carnes na parrilla para a próxima visita, que não vai demorar. Porque estou louco pra voltar.
Começamos com drinques enquanto a gente aguardava uma terceira amiga. Provei um drinque autoral, o Rib on the rocks, que é levemente picante, feito com tequila, Jerez, melão e pimenta togarashi, colada no copo; e um clássico, o Penilcilin. Ambos foram preparados com categoria pela jovem Andressa Moura, que executa muito bem (a ponto de chamar a atenção pelo equilíbrio e beleza dos coquetéis) a carta desenvolvida pelo mixologista Thiago Fernandes, de São Paulo, premiado pelo The World’s 50 Best Bars.

Depois do aperitivo etílico, fomos ao menu: pedi ao sommelier um sugestão de vinho branco que tivesse a versatilidade de acompanhar o menu. Para cozinha asiática dessa natureza, mesmo com base em carnes, eu prefiro brancos, com acidez e estrutura, para de combinarem com a untuosidade e o caráter dos temperos, com os sabores intensos dos molhos agridoces e picantes. Nesse contexto, vinho tinto não me parece bom de modo geral, só em alguns casos, enquanto brancos encorpados e também exuberantes, com corpo e acidez, me parecem muito mais adequados.
Veio um belo Chenin Blanc da África do Sul, que conheço e gosto muito (Chenin Blanc faz os vinhos que mais gosto neste país). Elogiei a indicação.

E Começamos com duas receitas de carne crua, que estão entre essas que mais fazem sucesso nas fotos. O steak tartare coreano, com pera asiática e gema acompanhado de um nori crocante (e viciante), espécie de mandoopan com essa alga japonesa. A diferença é clara no corte da carne, com tiras mais longas, e no sabor acentuado do óleo de gergelim.
Chegou junto o tataki de wagyu, com a carne selada e cortada em finas fatias, dispostas sobre um arroz japonês (o gohan) bem temperado, finalizado com gema curada e maionese kewpie apimentada, além de molho ponzu.

Depois, continuamos nas entradas. Veio uma guioza de porco muito da boa, além de empanadas de wagyu, e o bo ssam, um prato típico da Coreia, cujo serviço vem com uma fileira de barriga de porco fatiada servida com mais cinco guarnições e temperos, para montar um enroladinho na folha de alface: coisa boa de ficar fazendo.
Mas o destaque para mim foram mesmo as mollejas crocantes com sweet chilli, um clássico argentino reinventado, com o timo preparado na parrilla, ficando crocante e douradinho, e muito macio e suculento, envolvido em molho delicioso, agridoce e picante na medida certa. Vi que ali usam muita pimenta, que podemos sentir com clareza, mas sem ofender os que são mais intolerantes à ardência, que é um traço característico da cozinha coreana que norteia os temperos da casa.
Preciso lembrar que ali funcionou por muitos anos o Le Coin II, um clássico do Leblon, uma dessas casas famosas pelos pastéis. Como forma de homenagem eles fizerem o pastel batizado com esse nome, com massa frita com cachaça e cerveja, e recheio de queijo.

Prosseguimos
O katsusando, bom lembrar, está na moda, no Brasil e no mundo. Esse sanduíche clássico do Japão, de barriga de porco empanada com saladinha de repolho e maionese kewpie, é encontrado hoje em casas de diversos perfis, e podemos dizer até que se trata de uma tendência (que veio para ficar, porque é gostoso e prático de comer, cabendo em almoço, lanche, jantar e laricas da madrugada). Sempre que tem no menu eu provo, e posso afirmar com convicção que – para mim – o da Côt Parrilla é o melhor do Rio, nem em São Paulo eu lembro de comer um katsusando melhor.
Já não havia mais fome, mas muita curiosidade a respeito do resto do menu.
Eis, então, que a chef sugeriu, praticamente me intimando: “Você tem que provar o sanduíche de frango frito!”.
Não poderia negar, seria uma desfeita, além de tudo também ando mordendo belos sanduíches de frango frito por aí com muita atenção, tanto na linhagem mais americana, quanto seguindo o estilo japonês, como neste caso. Outro acerto da Côt Parrilla: posso destacar aqui a suculência da ave, num corte saboroso que me parece sobrecoxa.

Comemos bem. Mas, ainda assim ficou faltando muito coisa, de modo que já estou planejando uma segunda visita para o mais breve possível . Pratos com costela, por exemplo, que á assada em marinada asiática que tem molho de ostras, técnica que muita gente vem usando, não deixarei de pedir. Vejo que, marinada no molho chamado por eles de demiglace coreano, a carne é assada por 16 horas. Ela é servida sozinha, mas também vira noodle, por exemplo.
Sem falar na parrilla propriamente. De lá, numa churrasqueira bonita que tem um balcão para quem quiser observar os preparos, saem carnes diversas. Tem espetinho de flat iron com chimichurri; bife de chorizo temperado com rub coreano; ancho, fraldinha e até um black cod (que podemos traduzir como bacalhau fresco) no missô, um clássico lançado ao mundo por Nobu.
Por fim, há o galbi, outra “costela bovina marinada em molho agridoce e caramelizada na brasa. Clássico da culinária coreana com sabor intenso”, como está descrito no cardápio. Fiquei interessado.

E tem mais.
Há uma degustação, indicada para grupos, que se chama Côt à mesa, com cerca de dez itens. São guarnições típicas da Coreia, como kimchi, e arroz de kimchi, as batatas fritas da casa, temperadas, com maionese apimentada, além de quatro carnes desse menu de parrilla destacada acima, incluindo uma sobremesa, um doce de leite com sal de Maldon e toque de gergelim.
Provei duas sobremesas, falando nisso. A chef começou a carreira como patissiêr, e mostra isso em seus preparos. Mariana Rabello (anotem esse nome!) já trabalhou com Roberta Sudbrack e Pedro de Artagão e também é discípula do Itamar Araújo. O seu trabalho me chamou a atenção em todas as etapas do almoço.
A torta fondant veio com caramelo de missô salgado, finalização exclusiva de eventos, por enquanto, porque geralmente é calda de brigadeiro.
Vou fazer uma digressão.
No início do almoço eu pedi um drinque chamado Brisket, com rum envelhecido, licor de café, Campari, aperitivo de alcachofra e queijo, definido como “Defumado e potencialmente alcoólico” na carta. Porém, eles estavam sem algum item da finalização, uma defumação à mesa, direto no copo. Providenciaram a tempo de podermos pedir um desses drinques no encerramento, para combinar com uma das duas sobremesas, esse fondant de chocolate, com chantilly de mascarpone, a pedidos.
A outra sobremesa, a pedido da amiga Masterchef Izabel Alvarez, que engrandeceu esse longo e saboroso almoço, foi uma linda, leve e aerada tijelinha com ovos nevados, finalizados com framboesas e amêndoas caramelizadas. Ela pediu em homenagem à avó.
Achei bonito terminar assim, com uma torta de chocolate harmonizada com um drinque defumado e ovos nevadas lembrando uma avó. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas mostra que a Côt Parrilla é um lugar diferente mesmo, saboroso e cheio de memórias afetivas. Argentina com Coreia é muito inusitada mistura, que incrivelmente dá certo.
SERVIÇO
Côt Parrilla: Avenida General San Martin com Rua Cupertino Durão, 435, Leblon. Tel.: 21-97204-0224. Instagram: @cotparrila








