GENERAL GLICÉRIO: REFÚGIO DE CHARME NO RIO

Especiarias na feira que acontece aos sábados com direito a chorinho

Lucila Soares

‘Uma cidade moderna num bairro aristocrático!” Assim o jornal “O Globo” anunciou, em janeiro de 1945, o lançamento da Cidade-Jardim Laranjeiras, na Rua General Glicério. Eram 12 majestosos edifícios, em estilo Art Déco tardio, que incorporavam elementos da moderna arquitetura brasileira ao conceito de cidade-jardim criado no fim do século XIX pelo urbanista britânico Ebenezer Howard. O empreendimento ocupou a área onde funcionou por quase 60 anos – entre 1880 e 1937 – a Companhia de Fiação e Tecidos Aliança, uma das mais importantes fábricas de tecidos da cidade. A Aliança foi comprada pelo empresário Severino Pereira da Silva, que comandou a incorporação imobiliária. Eram construções altas, afastadas da rua, cercadas de verde. A promessa de “rigorosa seleção dos proprietários” reforçava o caráter exclusivo do empreendimento, que tinha como vantagens adicionais a tranquilidade, a proximidade das melhores escolas do Rio e a fartura de condução, que permitia chegar ao Centro em dez minutos.

Oito décadas depois, a região ganhou um novo perfil. A fartura de condução e o tempo necessário para chegar ao Centro fazem parte do passado. O pequeno comércio previsto no projeto original, no térreo dos prédios e com lojas voltadas para o consumo e os serviços cotidianos dos moradores, ganhou a companhia de bares e restaurantes de perfis diversos. A tradicional feira da Rua Professor Ortiz Monteiro, que começa e termina na General Glicério, fazendo uma espécie de alça, avançou sobre a pracinha que divide a área dos prédios nobres do resto da rua e incorporou inúmeras barracas de roupas, acessórios, bijuterias e artesanato no trecho que vai até a Rua das Laranjeiras. Há 25 anos, abriga um chorinho que arrasta multidões aos sábados.

Entre tantas mudanças, os moradores da região mantêm uma convicção: a de que o canto formado pela General Glicério e as pequenas ruas que a circundam é uma cidade. Mais ainda, é a capital da República Independente de Laranjeiras, um pequeno país comparável à aldeia de Astérix, o gaulês, o último reduto da resistência ao avanço do Império Romano. Essa associação com o personagem criado por Alberto Uderzo e René Goscinny é a primeira feita para definir a região por Ricardo Linck, editor da publicação artesanal “República”, autointitulada como “a voz não-oficial da República Independente de Laranjeiras”. Além de editor do jornal local, Linck é dono do Maya Café, inaugurado em 2008 e conhecido cidade afora por seu sensacional sanduíche de pastrame.omerciantes locais identificam naquele punhado de ruas um espaço de convivência especial,

A imagem da aldeia gaulesa pode se ancorar no resultado da eleição de 2022, quando Lula venceu ali com 59,72% dos votos, contra 29,51% de Bolsonaro – o pior resultado do ex-presidente na capital fluminense. Mas está longe de se esgotar aí. Tanto moradores quanto comerciantes locais identificam naquele punhado de ruas um espaço de convivência especial, que vai na contramão da correria dos grandes centros urbanos e começa pelo hábito de dar bom dia a qualquer pessoa com quem se encontre na rua. A jornalista Regina Zappa, que se mudou há pouco tempo para a Professor Ortiz Monteiro, quase esquina da rua principal da capital, depois de muitos anos no Alto Leblon, diz que se sente em uma cidade do interior, sem o provincianismo.

Regina tem ali muitos colegas de profissão, amigos de esquerda, pessoas ligadas às artes plásticas e à literatura. Lembra que pensava em talvez se integrar a um projeto de cohousing, na Região Serrana, opção de muitas pessoas que se aposentaram ou trabalham em casa e querem viver em um ambiente que propicie privacidade e convivência, simultaneamente. Na área da General Glicério ela e o designer Tulio Mariante, seu companheiro, conseguem exatamente isso.

“Quando desço, não preciso nem combinar. Sempre encontro algum amigo”, conta Regina, que graças aos vidros duplos que instalou nas janelas, nem ouve o barulho da feira.

Letícia Bosisio, sócia da Janela Livraria, inaugurada em novembro de 2025 na esquina da General Glicério com a Professor Ortiz Monteiro, diz que a loja apareceu como oportunidade imperdível de realizar um sonho. 

“A gente não pensava em abrir mais uma loja. Mas a General Glicério é um xodó, não só de Laranjeiras, mas do Rio. A Janela de lá tem uma integração, com a feira, com o Maya Café, com o samba, com aquela vida que pulsa. Aí um dia recebi um telefonema do dono do ponto, oferecendo a loja. Não tinha como não ir”, diz Leticia, que junto com suas sócias Martha Ribas, Antônia Moura e Renata Maciel está à frente de quatro lojas: além de Laranjeiras, Jardim Botânico, Gávea e Museu do Amanhã.

A filial República de Laranjeiras da Janela tem entradas pelas duas ruas. Abriga um pequeno café e tem poltronas disponíveis para leitura, além de banquinhos que podem ser levados para a calçada.  

“A vizinhança nos adotou, a livraria virou sala de estar”, diz Tatiana Antunes, coordenadora da loja. “Todos os dias tem mães e pais lendo com seus filhos. Outros vêm para tomar um café enquanto leem um jornal, ou folheiam um livro”, descreve.

Cachorros moradores

 Atualmente, além de conhecer quase todas as crianças pelo nome, Tatiana começa a conhecer os cachorros, que são bem-vindos na livraria e em praticamente todos os demais estabelecimentos da região.  São parte integrante da comunidade. Os que têm dono são conhecidos pelo nome pelos donos dos outros e por quem trabalha no comércio local. Os que não têm são tema da campanha “Cuidar é coletivo”, encabeçado pela jornalista Luciana Neiva, que arrecada recursos na vizinhança para mantê-los até que consigam um lugar para morar.

A 200 metros da Janela, do lado oposto da rua, está o salão Erni/Valdo Coiffeur, que funciona no mesmo endereço há 63 anos e incorporou à clientela netas e até bisnetas das primeiras frequentadoras. Foi criado por Erni Garcia, que morreu em 2011, e tem à frente desde então Valdo Medeiros, seu companheiro. Quase em frente ao salão, fica o Miolo, boteco recém-inaugurado, que vive lotado desde que participou da última edição da Comida di Buteco com sua “Língua enrolada”, uma improvável combinação de língua bovina com gorgonzola e maionese de coentro.

Essa efervescência perturba corações e mentes na pequena república. São poucos os que querem briga. A maioria orgulha-se de seu canto, mas quase todos admitem preferir a paz que reina ali de segunda a quinta-feira. De sexta a domingo eles formam pequenas rodas de conversa na calçada da área nobre e mais arborizada da rua, sentam-se nos bancos de jardim ou nos degraus de acesso aos prédios, refugiam-se nas casas uns dos outros. Fazem compras na feira, mas já não acham tanta graça no chorinho do grupo Pixin (de Pixinguinha) Bodega (de Zé Bodega). Adoram Luizinho Mandarino, que completou este ano bodas de prata com a região à frente da barraca que leva seu nome e vende uma das melhores caipirinhas da cidade. Mas só se sentam ali quando tem amigo “estrangeiro” no pedaço.

Carnaval 

O mesmo sentimento se instala quando o assunto é carnaval. A República tem dois blocos: o infantil Gigantes da Lira, criado em 1999, e o Laranjada, de 2001. A fama de ambos extrapolou as fronteiras. o que, na opinião de muitos, descaracterizou a folia local. Em 2006, o Laranjada arrastou cerca de cinco mil pessoas para a General Glicério. Rafael Machado, morador da rua há 30 anos, é filho de Robertão, um dos fundadores do bloco, e transmitiu a seus filhos a paixão por esse carnaval. A multidão estrangeira não abala a sua alegria de ver, a cada ano, seu apartamento transformado em barracão de adereços, camisas e instrumentos.

Verônica Moreira, dona do vegetariano Esperança Eco, nasceu na Ortiz Monteiro e atualmente mora na Cardoso Júnior. A primeira versão do bar um hortifruti, em 2022, e transformou-se em bar/restaurante com eventos musicais em alguns dias da semana. Acaba de se transferir para um espaço maior, e vive cheio. Com o duplo lugar de fala que a condição de moradora e comerciante lhe confere, Verônica discorre ponderadamente sobre o futuro da capital da República.

“Acho que é possível, sim, encontrar um caminho do meio entre o sossego dos moradores e o movimento dos bares e restaurantes. Bairros vivos precisam de encontros, cultura e convivência, mas isso deve acontecer com respeito aos moradores, aos horários e ao espaço público.”