TURISMO: ROCINHATOUR

Empresa criada na comunidade faz sucesso com turismo

Caroline Rocha

Quem escolhe “turistar” no Rio de Janeiro não sofre por escassez. A cidade oferece um inventário consagrado de cartões-postais: Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Praia de Copacabana, Maracanã… Há poucos meses, no entanto, outro destino passou a integrar esse circuito: a Rocinha, a maior favela do país em número de habitantes.

A iniciativa ‘Na Favela Turismo’, dedicada à organização de passeios turísticos em favelas, ganhou projeção nacional ao viralizar nas redes sociais através de vídeos captados por drones a partir da laje de uma casa na comunidade. As imagens revelam não apenas a grandiosidade de milhares de construções que se acumulam pelo morro, mas também uma vista panorâmica da Cidade Maravilhosa.

Turistas, artistas e influenciadores desfilam, encenam performances e até realizam pedidos de casamento na laje, que passou a ser chamado de “Porta do Céu”. O sucesso consolidou a experiência que surgiu despretensiosamente após um dos colaboradores levar um drone. Hoje, o voo de drone integra a rota oficial do passeio e é realizado em mais de dez lajes da Rocinha. Apenas em fevereiro de 2026, a Rocinha recebeu 41 mil visitantes — 80% deles estrangeiros. Cerca de 30% aderiram à experiência do drone.

O passeio, no entanto, não se limita à participação na “trend”. Antes de alcançar a laje mais disputada do momento, os visitantes percorrem becos e vielas da Rocinha por rotas que atravessam o comércio local e projetos culturais e esportivos. O trajeto inclui apresentações de capoeira e maculelê, loja de souvenires com produção local, restaurante com serviço de café, almoço, jantar, petiscos, drinks e sobremesas, além de feira de artesanato e aulas de samba em uma agremiação da comunidade.

De acordo com os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Rocinha tem 72.021 moradores, o que representa mais habitantes que dois terços dos municípios fluminenses.

Segundo a organização, o “Na Favela Turismo” beneficia diretamente mais de 60 moradores e conta ainda com aproximadamente 300 guias locais cadastrados no aplicativo, responsáveis por apresentar a arte, as histórias e o cotidiano da favela, expondo tanto seus desafios quanto as belezas do território.

A iniciativa surgiu cerca dois anos após uma turista espanhola ser morta em um tiroteio na comunidade em 2017. Na época, a Polícia Militar afirmou que o carro no qual ela estava furou um bloqueio feito pelos policiais e, por isso, os PMs fizeram disparos contra o veículo. A repercussão do caso afastou visitantes e esvaziou o turismo local por um longo período.

“Quando o turismo acabou, eu percebi que ninguém de fora viria salvar a nossa imagem. A própria favela precisava contar sua história. Eu aprendi muito cedo que a favela nunca teve falta de talento. O que faltava era oportunidade organizada”, afirma Renan Monteiro, CEO do Na Favela Turismo.

Entre as medidas de segurança adotadas estão monitores distribuídos pela comunidade para orientar os visitantes, além de um sistema de check-in no aplicativo, que compartilha automaticamente a localização do guia no início do tour.

O tour pode ser feito a pé pela favela, na garupa de um mototáxi ou pela trilha do Sítio dos Macacos. O percurso da trilha tem duração média de 30 a 40 minutos e conta com caminhos históricos e mirantes com vistas do Morro Dois Irmãos, Pedra Bonita, Pedra da Gávea e da própria Rocinha. O trajeto termina com um banho refrescante na represa.

Segundo a memória local, quem tomava conta do Sítio dos Macacos na década de 1980 era um preto velho conhecido como Manelito, figura que fumava cachimbo e corria atrás de quem invadia o terreno. Os moradores costumavam tomar banho na represa e pegar frutas como cambucá, jambo, jabuticaba, jaca entre outras.

Os passeios podem ser agendados pelo aplicativo ou pelo site oficial do Na Favela Turismo. As experiências guiadas custam a partir de R$ 80 (meia-entrada) e R$ 160 (inteira).