Bruno Agostini
Recentemente o guia Michelin introduziu um novo prêmio na edição 2026 do seu guia anual de restaurantes do Rio de Janeiro e de São Paulo: o Guide Exceptional Cocktail Award, dedicado a prestigiar, pela primeira vez, a coquetelaria. Os franceses apenas abraçaram uma tendência: os drinques chegaram com força ao mundo da gastronomia, e bares com cozinha de alta classe apresentam uma carta de coquetéis para serem harmonizados com os pratos, tomando em parte o lugar do vinho, que sempre ocupou isoladamente o protagonismo etílico das casas mais estreladas do mundo. O Rio reflete isso muito claramente, e temos hoje muitos endereços onde se come muito bem, podendo completar a experiência provando drinques muito bem executados, com apresentação cuidadosa e muito entrosamento com a comida. E agora podemos começar a formar a nossa identidade.
– Hoje nós temos muitos jovens bartenders bons e estudando. O nível de material à venda é muito melhor, desde equipamentos até livros de referência, assim como temos uma oferta melhor de bebidas, entre importadas e nacionais. Além disso, há mais cursos de formação profissional, e muito mais eventos que promovem o intercâmbio, o que sempre favorece o aprendizado. Hoje eu vejo uma coquetelaria crescente, com muitos profissionais estudando, buscando oportunidade de trabalho. E muitos donos de restaurante abriram a cabeça para o bar, investindo em bons profissionais e estrutura – conta Alex Mesquita, um dos pioneiros na categoria, e dos mais premiados bartenders do país, mixologista e diretor criativo de coquetéis do Elena, um dos lugares essenciais para entender a cena atual da coquetelaria não apenas do Rio, mas do Brasil.
Em meio a tantas boas notícias, não podemos deixar de lamentar o fechamento do Meza Bar, em Botafogo, um dos primeiros bares do país a apostar em gastronomia de qualidade, assinada por chefs conhecidos, associada à uma coquetelaria de alto nível. Com 18 anos de atividades, o bar fecha as portas depois de muitos eventos, com noites memoráveis, recebendo profissionais de outros lugares, e tendo papel fundamental no desenvolvimento desse universo. Numa das noites de despedida eles receberam a visita de Alex Mesquita, que assumiu o bar, recebendo clientes e amigos como a sua colega Laura Paravato, outra profissional consagrada através de prêmios de destaque no ano passado, como melhor bartender do Brasil pela Prazeres da Mesa, e do Rio, pela Veja. Ela aproveitou a oportunidade para divulgar a novidade: ela acaba de assumir a gestão de bares do Grupo Best Fork (Giuseppe Grill, Yusha, Nolita e Xian, entre outros), começando por assumir as coqueteleiras como residente no novo Bar São Miguel, que abriu as portas no fim de abril, em Botafogo, primeira investida pesada do restaurateur Marcelo Torres num bar com coquetelaria.
– Em mais de dez anos atuando na área, eu nunca vi um bar tão imponente – conta Laura.
Nesse processo, o Rio vai lapidando a sua própria identidade no mundo dos drinques, a partir do conhecimento de base difundido nos últimos anos.
– Acho que a gente volta a resgatar a raiz da coquetelaria clássica, inclusive o DNA do Liz é esse. A gente vê uma consolidação de coquetelaria clássica, pra gente depois descobrir o que realmente é a identidade do Rio de Janeiro na coquetelaria. Aí, ao criar uma base da coquetelaria clássica, a gente já começa a poder fazer os drinques autorais em cada lugar. A gente está no processo do Rio ainda se descobrir, mas isso com uma consolidação de uma base muito sólida, para assim a gente poder desenvolver uma identidade real do Rio de Janeiro mais embasada em uma estrutura, um conhecimento mais profundo – conta Tai Barbin, do Liz Cocktail e Wine.
Para celebrar esse momento especial da coquetelaria, escalamos uma verdadeira seleção carioca de bares, lugares nos quais os drinques são as estrelas principais da carta de bebidas.

Arp Bar
No térreo do Arpoador Hotel, o bar é comandado por Waguinho, um dos profissionais mais ativos do Rio, que criou uma carta de drinques apresentada em cards colecionáveis, uma tendência no universo da gastronomia. Podemos pedir, por exemplo, o Sombra e Mate, receita que combina Cachaça Cobra Coral, mate com ervas brasileiras, suco de limão, Cynar 70, melado de cana, maracujá e hortelã; ou O Nômade, uma espécie de Michelada, feita com uísque Deward’s 12 anos defumado com tomilho, limão, mel com missô, maracujá, pimenta e cerveja Heineken. Vale ficar atento no calendário de eventos, é um dos mais movimentados do Rio, com muitos bartenders convidados.
Bar São Miguel
A novidade do ano no quesito coquetelaria tem Laura Paravato no comando. “É um bar focado em clássicos, então a gente vai ver com muitos clássicos revisitados numa roupagem com ingredientes brasileiros e adaptados para o paladar brasileiro carioca. Mas a base é 100% clássica. Mas, não é só isso: tem 10 drinques autorais no cardápio fora os clássicos Best Fork, uma compilação de coquetéis consagrados no grupo, e aos poucos eu vou ajustado todas as operações do grupo. No São Miguel, dos novos, o meu preferido é o Pra mim, o meu preferido é o Spiced Old Fashioned, uma releitura, trazendo especiarias, trocando açúcar por rapadura, um pouquinho de Perrie, bitter de cacau: bom demais!”, diz Laura, que vai trabalhar os conceitos de harmonização com a comida: “O cardápio vem com uma pegada de lenha, então é muita carne vermelha, coisas defumadas etc. Então, eu venho com uma carta de drinques bem cítrica, refrescante, puxando pro seco, também pra dar aquela limpada de paladar e agregar a experiência. A gente vai fazer muita ativação de harmonizações de jantares e almoços com marcas e com outros bares e bartenders do Brasil da América Latina”, completa.

Blue Blazer
“Somos um bar e Instituto de Mixologia”, assim de define o espaço de Lelo Forti, em Botafogo: é uma escola de coquetelaria que se converte em bar de drinques de quarta a sábado, do mais alto nível. Interessante ali é que, muito viajado para participar de eventos, Lelo tem um acervo de destilados, bitters, vermutes e outras bebidas essenciais que não estão disponíveis no Brasil, verdadeiras raridades que podem entrar em receitas de drinques ou serem apreciadas sozinhas. Há muitos encontros, ativações de marca e eventos que são um prato cheio para aqueles interessados no assunto. O lugar é extremante elegante e intimista, com sofás e um clima de casa de amigo. Os drinques clássicos ali são impecáveis, uma aula de coquetelaria.
Conserva
Esse botequim de Copacabana reúne um trio de bartenders muito entrosado, que tem como mote defender a “coquetelaria popular brasileira”, prestigiando marcas tradicionais de bebidas nacionais. E viva o rabo de galo! Thiago Teixeira, Raí Mendes e Igor Renovato estão por trás do sucesso da casa, criando drinques com preços atraentes de alta qualidade, e ao mesmo tempo surpreendentes. Não deixe de provar as chamadas “conservas etílicas”, coquetéis com base em vermute, em três versões, branco, rosé e tinto, que trazem na sua composição elementos salgados, que compõem de modo interessante a paleta de sabores.
El Born Gastrobar
Inspirado no bairro boêmio de Barcelona, foi um dos primeiros bares a apostar (acertadamente) em drinques clássicos e autorais na cidade. Pequeno, desde 2012 instalado na Rua Bolivar, em Copacabana, o espaço tem no comando o bartender Zan Andrade, que com o tempo assumiu a coordenação de coquetelaria de todos os bares de Antônio Rodrigues, da rede Belmonte. Ele criou receitas como o Rosemary Punch, com Tanqueray, vermute seco, tomate-cereja, alecrim e limão siciliano, leve e refrescante como pede o clima carioca.

Elena Horto
Sob a coordenação de Alex Mesquita o badalado restaurante tem nada menos que três bares, um para cada andar do imóvel suntuoso que causou alvoroço no Horto desde que abriu as portas em 2023. Ambientes lindos, equipe afinada e muitas possibilidades etílicas são as propostas ali, um dos lugares onde é fácil pedir qualquer drinque clássico e suas variações, mesmo fora da carta, porque os bartenders estão preparados, e com bom acervo de bebidas para fazer as receitas. Não é todo lugar que tem um Smith & Cross ou Appleton Estate, dois rótulos de rum jamaicano envelhecidos, que são o segredo desse coquetel.
Liz Cocktail e Wine
A casa do bartender Tai Barbin é um desses lugares essenciais, onde a coquetelaria alcança um nível altíssimo de execução. A carta de bebidas muda constantemente, sempre proponde experiências inovadoras e muito interessantes, com eventos temáticos que fogem do comum. A carta atual, além de linda esteticamente, tem um conceito poético, que traz elementos gastronômicos apresentados em forma de coquetel. Quel tal, por exemplo, beber um Brioche, feito com cachaça Magnífica, brioche e pera, numa composição deliciosamente surpreendente. Fique de olho no calendário de eventos. E leva para casa alguns drinques engarrafados, como o Royal Nail, com Founder Reserve, Drambui e bitters.

Nosso Ipanema
Aqui comida e coquetelaria se alinham de modo muito raro de se ver. Daniel Estevan brilha como poucos no balcão do bar, amparado por uma equipe competente e bem treinada, que trabalha muito bem dos clássicos as receitas autorais criadas por ele. A carta é dividida em quatro setores bem demarcados: Tropicalismo Líquido (da temporada), Nossos Clássicos, Barris e Amaros e Nossos Spritz. Vale apostar nos sazonais, como Sagrado Profano, com Tanqueray Ten, cordial de figo confitado e água de tomate salinizada; e a Baía de Todos os Santos, receita com Gold Label, Black Label, Royal Charlotte, tamarindo, espumante de acerola, bacuri, Lagunitas IPA, Perrier, limão Taiti, rapadura e umeshu.
Quartinho Bar
Foi aqui que começou a brilhar o talento de Jonas Aisengart, um artista plástico que resolveu estudar coquetelaria e logo se destacou, se tornando um dos principais nomes dessa cena, e abrindo em sequência outros bares e restaurantes de grande sucesso, como Pope, Chanchada, Guadalupe e Giancarlo – em todos a carta de drinques se destaca. O Quartinho tem clima festivo e descontraído, e é dos lugares mais animados de Botafogo atualmente. Irreverente e com preços populares, o menu de bebidas tem uma página com “Os 4 de R$ 24,00”, ou seja, um quarteto de drinques que custam esse valor. Os Consagrados são receitas que entraram para a galeria da fama da casa, como Gabriela Não Voltou, com Gin Larios 12 infusionado com mate e tangerina, licor de canela e mel, gengibre e suco de limão siciliano, com defumação de cravo e canela.
Suru Bar
Logo em frente está uma casa irmã, o Suru Bafo, ambos sob o comando da dupla Raí Mendes e Igor Renovato, também à frente do Conserva. Entre a Glória e a Lapa, o movimentado bar igualmente defende a bandeira da “coquetelaria popular brasileira”, um lugar para escutar samba ao sabor de drinques como o Sassaricando, preparado com rum com pimenta-de-cheiro, licor de mel de cacau, gengibre e bitter de chocolate; Becoza, com cachaça branca, louro, limão e bitters; e o Zé, com cachaça envelhecida, Cynar, mel, limão e hortelã. O caju amigo é espe
tacular, e leva uma deliciosa compota da fruta feita por eles, além de cachaça e limão.

Vian Vian Cocktail Bar
Frederico Vian sempre está citado nas listas de melhor bartender da cidade, aliando competência no preparo e simpatia no atendimento. Ele está sempre na casa, o que torna a experiência ainda mais interessante. Explore os Clássicos do Vian e os Autorais, com receitas criadas por ele, como Nicarágua, com rum branco, coco tostado, suco de abacaxi e hortelã, receita clarifica com iogurte; e o Temperado, com vermute, salmoura de azeitona, bitter e pimenta. Lembrando que os clássicos ali também são muito bem executados, como devem ser.










