Luisa Prochnik
Três andares repleto de mesas ocupadas por jogadores animados em meio a estantes cheias de jogos de tabuleiro. Uma viagem ao passado, com War e Perfil, e ao presente, com os queridinhos Dixit e Catan. Vida e vozes pulsam: o espaço lota antes do início da noite de um domingo. O detalhe mais marcante, no entanto, é o que não se vê: não há pessoas normalmente vidradas em telas de celular. Mas em vez disso, as mãos estão ocupadas; lançam dados, viram cartas estrategicamente e dedos apontam para o tabuleiro enquanto mentes planejam o próximo movimento. Esta é a Luderia Carioca, um lugar dedicado a encontros presenciais acompanhados de jogos, bebidas e comidas. Às mesas, grupos de adultos dividem o espaço com casais, famílias e duplas diversas.
William Devillart, sócio-fundador da casa, conecta esse interesse em jogos de tabuleiro ao desejo de presença e trocas na vida real após o isolamento da pandemia, longe de telas e algoritmos. Após 2020, o mercado do tabuleiro cresceu 30% no mundo todo.
– As pessoas buscam refúgio no tabuleiro para fugir das telas. Então, é um entretenimento analógico, que cria vínculo, que cria parceria ali – explica.
William, quando criança, apoiava o tabuleiro na calçada e ali era onde ele e os amigos jogavam. Banco Imobiliário era uma figurinha fácil nessa época. A história de encontros presenciais proposta pela Luderia Carioca nasceu de uma conexão digital. William mantinha uma página de fotos de seus jogos quando um seguidor — que ele ainda não conhecia pessoalmente — curtiu as postagens e confessou o desejo de abrir uma locadora. Após uma chamada de vídeo, os dois criaram a identidade visual e iniciaram o negócio com aluguel por delivery, partindo de um acervo inicial de 55 jogos para os atuais 750 títulos.
Essa trajetória de transformar o hobby em negócio é compartilhada por Natan Ximenes, proprietário da Ludonexo. Ele começou a alugar jogos para tornar sua coleção pessoal autossustentável e mostrar a um grupo além de seus amigos os benefícios dos jogos de tabuleiro.
– Isso é justamente o que nos move, nosso objetivo é fazer com que, através dos jogos de tabuleiro, as pessoas cada vez mais aproveitem o momento, curtindo a companhia uma das outras, de forma real e presente – diz.
O mercado atual divide-se para agradar a todos: os jogos familiares, simples de mecânica facilitada; os eurogames, estratégicos; e os amerigames, temáticos e narrativos que “gostam do caos”, segundo William, fã dos que exigem mais planejamento.
– O nosso público quer jogos mais festivos. Jogos com alto índice de alegria, gritaria, festa, como “Taco, Gato, Cabra, Queijo, Pizza”, “Dixit”, “Só Uma” – enumera William.
– Nosso público, normalmente, são pessoas entre 25-35 anos, normalmente casais à procura de jogos para dois jogadores (dos quais temos vários, que fazem bastante sucesso), amigos à procura de jogos para curtirem juntos e famílias que procuram uma atividade longe de telas – completa Natan.
Jogos mais complexos exigem esforço extra por parte dos que trabalham nesse mercado. E, por isso, no caso de ambientes como a Luderia, há monitores disponíveis a explicar as regras para quem está chegando agora poder rapidamente sair da fase aprendizado para diversão.
– Na Ludonexo, nosso serviço de aluguel envolve uma curadoria no momento do atendimento, para entender o perfil da pessoa e poder indicar jogos que sejam tranquilos de aprender e divertidos de jogar, de acordo com a familiaridade que a pessoa tem com jogos de tabuleiro – adiciona Natan sobre a experiência no delivery.
E, no fim das contas, seja qual for o estilo do jogo, é a diversão mesmo que importa: ser lúdico e promover diálogo e convívio entre os participantes, o que inclui jogos de cartas, mesmo sem o tabuleiro propriamente dito.
– A gente está tendo aquela troca, aquela interação. Então, cartas e tabuleiro geram a mesma sensação, a mesma experiência – completa William.
– A presença, o foco ali no momento, todos juntos e conflitos sendo resolvidos com diversão – acrescenta Bethania Blum, farmacêutica e entusiasta. Ela conta que o hobby voltou com força após a maternidade.
– Quando tive filhos voltei a jogar com eles e acho os pais deles também. Ou eles já tinham essa experiência em paralelo, não sei. Com isso fui apresentada a jogos novos e o que inicialmente era um momento pais e filhos, virou um momento só pais – diz Bethania, que diz ter momentos para tirar os menores da sala – Tem horas que vetamos as crianças, porque, senão, fica muito café com leite. E aqui é voraz.
Mistura de amor e Negócios
Em relação ao modelo de negócio, a Luderia Carioca cobra uma taxa fixa por pessoa.
– O jogo é um entretenimento a mais, um oferecimento à parte, um espetáculo. Como quando você vai ao cinema e come a pipoca, a Luderia carioca entrega diversão e qualidade do restaurante – compartilha William – O serviço de restaurante é o que garante a rentabilidade.
Nesse ambiente com um colorido que remete aos anos 80 e onde o digital perde espaço para a interação física, milk-shakes se destacam entre uma jogada e outra. Tim-tim.
Xadrez, o protagonista
Apesar da avalanche de jogos modernos, o Xadrez continua sendo um dos soberanos absolutos, sendo o jogo mais pedido na Luderia Carioca. Classificado como um “clássico abstrato”, ele exige raciocínio lógico e planejamento matemático.
– Muita gente vem em dois só para jogar xadrez – conta William, que diz também ter outros jogos abstratos tradicionais, como o gamão.
Essa longevidade do jogo e a permanência de interesse entre os jovens é personificada por Dante Possamai, de 8 anos, que aprendeu com o avô Túlio e já encara campeonatos. Gabriel, pai de Dante, reforça o valor do jogo para a formação do filho.
– O Dante tomou gosto pela forma como meu pai apresentou o esporte e, a partir daí, foi se interessando cada vez mais. Aos 6 anos ele iniciou as aulas extracurriculares de xadrez na escola – conta o pai, que, com frequência, joga uma partida com o filho.
Em uma era de vídeos curtos que fragmentam a atenção, o xadrez exige concentração profunda.
– O que eu mais gosto é de pensar na jogada, nos temas de mate e nessas coisas um pouco complicadas do xadrez, para ver se eu aprendi – explica Dante, que participou recentemente do seu primeiro campeonato – Eu joguei cinco partidas. É sempre difícil no primeiro torneio, né? Mesmo assim, eu consegui me sair bem.









