MODA: CUIDAR DO PLANETA, A VERDADEIRA ELEGÂNCIA

Runway Fashion, plataforma que pensa a moda pelo prisma da sustentabilidade, chega ao Rio em edição exclusiva

Aydano André Mota

A luta ambiental – em verdade, a cruzada pela sobrevivência dos humanos e dos outros grandes mamíferos no porvir – exige a transformação de setores assentados em práticas venenosas ao planeta, entre eles a moda. Seja pelo consumo desenfreado (que produz lixo em dimensões apocalípticas) ou pela utilização de insumos conseguidos de maneira insustentável, a indústria virou vilã e está em busca permanente pela reinvenção.

Felizmente, talentos como Anderson Vescah engajaram-se na transformação. Consultor de moda e estilo, o carioca vive em Paris há cinco anos e, desde 2024, desenvolve, como diretor criativo, a Runway Fashion, plataforma para designers e outros profissionais de criatividade emergentes. A salvo de marcas hegemônicas, o trabalho multidisciplinar orienta o processo produtivo, incentivando a reformulação de dogmas conservadores.

Está a um mundo de distância da mera fabricação de roupas, sapatos, acessórios. Incentiva a pensar um planeta novo, melhor, mais racional – e trabalhar ativamente pela mudança. A iniciativa nasceu na capital francesa passando ainda por Lisboa e Milão. Em setembro, desembarcou no Hemisfério Sul, no Rio de Janeiro, nas vésperas da terceira edição, novamente na cidade onde surgiu. Estabeleceu-se conexão inédita e virtuosa entre a terra carioca e o berço mais tradicional da moda.

A breve trajetória pavimentou a consolidação da Runway Vision como autoral, de identidade marcante, priorizando criadores que investigam a linguagem cultural, focada em design, slow fashion, identidade e processos exclusivos, de identidade marcante. “Começamos tentando entender o que seria e fomos moldando na prática, ano após ano”, narra Vescah. “Hoje entendemos com mais clareza o lugar entre moda, arte e intercâmbio cultural; daí o acerto da proximidade entre as edições do Rio e de Paris, num direcionamento ainda mais assertivo”.

“A indústria está num ponto enlouquecido de criatividade. Os desfiles mostraram preocupação com meio ambiente, postura, reciclagem, em roupas estruturadas e modelos deslumbrantes. Moda que traduz postura, mensagem e narrativa para mundo. É um projeto inspiradíssimo”. (Milton Cunha)

A estreia brasileira se deu durante a Semana de Arte do Rio, no MAR, museu localizado numa das pontas da Praça Mauá. Nasceu de convite da Secretaria Municipal de Cultura, por meio de Amanda Mendonça, responsável pelo Conselho de Moda do Rio. Um orgulho que Vescah exalta como consequência do crescente interesse internacional pela moda do país. “Existe hoje olhar muito forte e crescente dos estrangeiros para o que estamos realizando no Brasil”, atesta. “Temos identidade, diversidade e uma produção autoral extremamente potente. Por isso decidimos fazer também o movimento inverso: vir até aqui, identificar esses criadores e ajudá-los a circular internacionalmente”.

Combina com o conceito da Runway Vision como espaço de conexão entre criativos e mercados internacionais, ponto de encontro da moda com outras artes visuais, música, performance e cultura urbana. “Defendemos a criatividade e o conceito de slow fashion, com foco na sustentabilidade”, traduz o diretor, responsável pela curadoria dos artistas que buscam lugar no competitivo (e zilionário) mercado da moda. Para participar, os profissionais precisam garantir a certificação de materiais, a rastreabilidade da cadeia produtiva e o uso inovador nas criações.

Assim, desfilaram na plataforma do evento carioca roupas fabricadas, por exemplo, com surreais couros de tilápia, pirarucu e bacalhau. Ou o metal maleável do goiano Caio Mota, que criou os acessórios usados pela cantora Marina Sena. Ou os florais de Barbara Carnieli, capixaba que inventou o conceito cênico vegetal dos shows da turnê Equilibrium II, de Anitta. No evento do MAR, ela apresentou a Obra a Metro, desenvolvida durante residência artística, em Lisboa, ano passado. Destacou-se o camisão confeccionado a partir de um dos tecidos que integraram sua pesquisa, com aplicações inspiradas em desenhos florais e nas linhas das águas.

Além dos desfiles e das criações dos estilistas, a Runway Fashion realizou quatro diálogos, nas aberturas dos dois dias. Os temas atraíram a atenção de plateias numerosas, por sinalizar visões inovadoras da moda e do mundo: “O poder estético da periferia”, “Ancestralidade indígena”, “Sustentabilidade na prática” e o mais aclamado, “Nossa vida bantu”, sobre ancestralidade negra.

Neste último, o babalorixá e antropólogo Rodney William, a jornalista Luiza Brasil e as designers Kananda Soares e Mônica Sampaio debateram os saberes herdados dos povos diasporizados de África. Desfilaram reflexões preciosas sobre o que tem sido historicamente apropriado pela indústria da moda sem o devido reconhecimento, em especial diante das demandas por representatividade, autoria e protagonismo. Ao mesmo tempo, foi dado o devido destaque ao poder do consumo negro como força econômica, forma de afirmação política e agente de transformação no mercado. “Fui água na rachadura, me adequando, me adaptando, para me articular diante do cenário excludente”, descreveu Luiza Brasil, que começou como assessora digital da lenda Constança Pascolato. “Não tenho vergonha de mostrar meu ponto de vista. Acrescentei repertório, num espaço que não estava dado”, exaltou.

“O evento ratificou a volta do brilhantismo da moda carioca, após anos de apagamento. Além disso, as criações mais autorais, com a cultura urbana, e misturando música e outras intervenções artísticas, deu potência aos dois dias. Fiquei muito feliz de estar junto”. (Gabriela Lopes, diretora do espaço)

“A indústria está num ponto enlouquecido de criatividade. Os desfiles mostraram preocupação com meio ambiente, postura, reciclagem, em roupas estruturadas e modelos deslumbrantes. Moda que traduz postura, mensagem e narrativa para mundo. É um projeto inspiradíssimo”, festejou Milton Cunha, o grande comunicador do Carnaval.

Aliás, uma marca nascida na Sapucaí que se consolida como emblema de inteligência no entretenimento e na cultura também esteve presente na Runway Fashion: o Camarote Favela. “O evento ratificou a volta do brilhantismo da moda carioca, após anos de apagamento. Além disso, as criações mais autorais, com a cultura urbana, e misturando música e outras intervenções artísticas, deu potência aos dois dias. Fiquei muito feliz de estar junto”, comemorou Gabriela Lopes, diretora do espaço que também esteve na edição mais recente do Rock in Rio.

“Está todo mundo buscando se alinhar com práticas sustentáveis, ainda que muitos ainda tentem se esconder no greenwashing”, ressalva Vescah, referindo-se ao uso antiético da ecologia somente como fachada. “Hoje, semanas de moda menos badaladas são mais receptivas”, explica, citando Copenhague, na Dinamarca, como exemplo. “Precisamos tirar o olho da moda por si só, para se alinhar a sustentabilidade, rastreabilidade e consumo consciente”, prega, ostentando a elegância de que o planeta precisa.