RONALDO CEZAR COELHO: O BANQUEIRO QUE TROCOU A VIDA DE MILIONÁRIO PELO AMOR AO RIO

“Vendi minha alma por tudo aquilo que me disseram que ia dar certo.”

Lucila Soares

A trajetória de Ronaldo Cezar Coelho tem todos os ingredientes de uma série de sucesso. E ele sabe disso. O prazer de contar casos é uma de suas características mais marcantes, e é com gosto especial que o ex-banqueiro, ex-deputado federal, grande colecionador de arte brasileira e um dos maiores investidores individuais da Bolsa de Valores brasileira passeia por sua própria história. Valoriza cada capítulo. A saga dos pais, que migraram do de Belém do Pará para o Rio de Janeiro no início dos anos 1940. A infância de classe média vivida entre o Leme e Copacabana, dividindo quarto com seu irmão Arnaldo, futuro juiz, quatro anos mais velho, que desde criança determinava qual era a regra clara para a hora de apagar a luz. Os negócios fracassados na juventude (entre eles, a sociedade no salão de cabeleireiro “Balaio”, no Leme). A ascensão meteórica no mercado financeiro. A crise existencial aguda na meia idade.  A descoberta de novos valores e um novo amor na  maturidade (com a jornalista Ana Flor, da GloboNews) são os ingredientes de uma trama com final feliz que o teria como incontestável protagonista. 

No entanto, aos 79 anos e aparência de bem menos, feliz por não mais ocupar cargo executivo em lugar algum, poder pisar descalço na grama da Fazenda São Fernando, em Vassouras, e flanar tranquilo pelo Leblon, onde mora há muitos anos, Coelho dá uma guinada de roteirista. Deixando em segundo plano todo esse enredo e sem mencionar em nenhum momento seu patrimônio estimado pela revista “Forbes” em R$ 4,8 bilhões, define-se como “um vendedor”.  Dá, assim, uma boa chave para entender os ingredientes que o levaram a se tornar um personagem que circula com desenvoltura invulgar por tantas esferas da sociedade carioca e brasileira. Essa autodefinição começa com uma situação bem concreta. Aos 20 anos, estudante de Direito na PUC-Rio depois de cursar os atuais ensinos Fundamental e Médio em escolas públicas, foi trabalhar na Robertão, uma concessionária de automóveis em Copacabana. Ali descobriu-se um bom vendedor, não só por rapidamente dominar truques da venda propriamente dita, como baixar o preço do carro e depois seduzir o comprador com acessórios diversos, como rádio, mas principalmente pela simpatia com que conquistava a freguesia.

DA ARTE DE CULTIVAR AMIGOS

Aí começa uma série de coincidências, ou golpes de sorte, ou uma conjugação de ambos temperada por doses de esperteza e muita verve. Ao mesmo tempo em que, na PUC, tinha colegas que pertenciam a famílias mais bem posicionadas socialmente que a dele e abriam portas para ampliar horizontes culturais e de relacionamento, na Robertão encontrou clientes especiais. Uma delas foi Sandra Mattman Gros, mulher do economista Francisco Gros, que viria a se tornar o poderoso presidente do Banco Central no governo de José Sarney em 1987, em pleno Plano Cruzado, o primeiro de uma série de cargos públicos e privados importantes. Ela era uma americana que mal falava português, assim como Coelho não falava inglês. Mas sempre que o rádio do carro dava defeito, era a ele que ela recorria. Até que um dia Sandra o convidou para jantar no apartamento do Parque Guinle, endereço chique, em que morava com o marido e a sogra, Dulce Simões Correia. Foi de dona Dulce que Coelho recebeu, pela primeira vez formalmente, uma aula de como se comportar à mesa. Em sua primeira viagem aos Estados Unidos, Gros preparou um detalhado roteiro e Sandra o levou a todos os museus e coleções importantes de Nova York, despertando seu interesse pelas artes plásticas.

No final dos anos 1960, através de alguns contatos costurados entre esses dois mundos, arranjou um emprego de auxiliar e, em seguida, de operador de pregão da corretora Multiplic na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, foi aprendendo a se posicionar no mercado, comprando algumas ações por conta própria. Acabou sócio da Multiplic, ao lado do também operador – e mais experiente – Antônio José de Almeida Carneiro, conhecido como o “Bode”. Como sócios controladores, a dupla fez fortuna na década de 1970 durante o milagre brasileiro, tornando a Multiplic em uma das principais corretoras a operar no open market. A essa altura, Ronaldo, com pouco mais de 30 anos, já abandonara as aventuras juvenis e consolidara uma sólida vocação para os negócios e uma rede crescente de relações. As que faltavam, ele tratou de construir. Descobriu o horário do voo em que o diretor do Banco Central responsável pela área que concedia cartas patentes a instituições financeiras que pretendiam se tornar banco voava semanalmente para Brasília. O passo seguinte foi observar o número da poltrona em que costumava viajar. E comprava o assento ao lado. De conversa em conversa, conseguiu o acesso que pretendia para solicitar a carta patente da Multiplic, que foi uma das duas corretoras que se tornaram bancos nos anos 1970. A outra deu origem ao Garantia, do poderoso trio Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles.

Já alçado à condição de banqueiro, Ronaldo foi novamente bafejado pela sorte de um acaso. Em um almoço na casa de Marcos Vianna, que presidiu o BNDES entre 1970 e 1979, Ronaldo conheceu o médico e empresário Pedro Alberto Guimarães, de quem acabou comprando a Fazenda São Fernando, no início dos anos 1980. A fazenda, que fica em Massambará, distrito de Vassouras, e tem uma belíssima sede, de 1813, que passou por um restauro caprichadíssimo e foi a semente de sua atual paixão pelo Vale do Café.

NADA SERÁ COMO ANTES

Naquela época, aparentemente Ronaldo voaria em céu de brigadeiro até o fim de seus dias. Antes dos 40 anos, tinha tudo o que se convencionou fazer de um homem alguém bem sucedido: uma mulher bonita, um filho idem, prestígio, dinheiro e poder. Mas não foi assim. De uma hora para outra, o mundo veio abaixo, e o obrigou a uma guinada na vida. O ex-banqueiro disse em entrevista ao rabino Nilton Bonder, de quem é amigo:

“Vendi minha alma por tudo aquilo que me disseram que ia dar certo.”

Por conselho de uma amiga, buscou apoio na terapia Fischer-Hoffman, que andou muito em voga nos anos 1970 e 1980, e consistia em três meses de isolamento em um retiro intensivo de autoconhecimento. Ao emergir desse mergulho, decidiu que não queria mais ser banqueiro e afastou-se do Multiplic, que foi vendido para o Lloyds Bank em 1997 por cerca de US$ 600 milhões. Em seguida, entrou para a política, decidido a ser candidato à Assembleia Nacional Constituinte. Calculou que precisava obter 50 mil votos – o que signficaria fazer acordos em 50 a 60 municípios fluminenses. Em 1988, elegeu-se deputado federal constituinte pelo Rio de Janeiro, iniciando uma carreira política que lhe deu quatro mandatos. Foi secretário de Indústria e Comércio no governo de Marcello Alencar, período em que consolidou o pólo automobilístico de Resende e Volta Redonda, no Vale do Paraíba, e trabalhou pelo Porto de Sepetiba. Depois foi aos poucos deixando a vida pública – sem jamais deixar de cultivar seus relacionamentos, como ficou demonstrado na inauguração do Museu de Vassouras, dedicado à memória da região cafeeira do Estado do Rio, que reuniu a fina flor da política e da sociedade carioca e fluminense, além de amigos de todas as épocas da vida.

SONHOS E REALIZAÇÕES NO VALE DO CAFÉ

O museu, inaugurado em novembro de 2025, ocupa o prédio que foi a Santa Casa de Vassouras e estava em escombros depois de um incêndio, quando foi comprado por Ronaldo, em 2018. A exposição inaugural, chamada “Chegança”, ficou em cartaz até o último fim de semana de julho e reuniu dezenas de obras, a maioria pertencente ao Instituto São Fernando, para o qual Ronaldo doou sua coleção. Ele explica que tomou essa decisão – seguindo o caminho de outros colecionadores – porque coleção é uma “paixão intransferível”.

“O destino das coleções é irem à venda desvalorizadas, porque é impossível você transmitir a seus filhos o amor por aquilo. A menos que você dê um fim institucional a ela. Hoje, tudo é propriedade do Instituto São Fernando, cujo patrimônio não se comunica com o meu e não corre o risco de ser objeto de alguma execução fiscal, por exemplo.”

Feliz com o sucesso do museu, Ronaldo agora quer outro projeto. Aliás, já tem outro projeto: apresentar à Unesco a candidatura do Vale do Café a patrimônio mundial, material e imaterial da humanidade. É um projeto intermunicipal e interestadual, porque o Vale do Café engloba um conjunto de 16 municípios que inclui Vassouras e foi o dínamo econômico do Brasil durante boa parte do século XIX. Ali se produzia 75% do café consumido no mundo, os fazendeiros tinham status de barões e financiavam espetáculos locais de ópera com as companhias estrangeiras que vinham se apresentar no Rio. Vassouras chegou a ter três teatros de ópera.

O projeto tem conexão com o museu, com as fazendas históricas, as praças, os chafarizes, o jongo, os cantos, as festas, a folia, além de ter um ótimo cartão de visitas no ambicioso projeto de reflorestamento que está em andamento na Fazenda São Fernando. ´Na área, que estava totalmente devastada pelo café, já foram plantadas 300.000 árvores nativas da Mata Atlântica e estão sendo plantadas mais 20.000 por ano, com projeto desenvolvido pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pela Embrapa.

“É ousado? É. Demora? Demora. Então tem que começar logo, afinal vou fazer 80 anos no ano que vem”, conclui.

O FILHO TEM  UMA OBSESSÃO: GESTÃO PÚBLICA

Guilherme Cezar Coelho não teve uma infância de filho de milionário. Embora seu pai já fosse dono do Banco Multiplic, ele não era o garoto mais rico de sua turma no Colégio Santo Agostinho, uma das mais tradicionais escolas de elite do Rio de Janeiro. Tinha 16 anos quando Ronaldo vendeu sua parte no banco, e lembra de uma conversa no carro, entrando na garagem, em que o pai pediu sua opinião sobre essa decisão. A intenção, comenta hoje, aos 47 anos e pai de dois filhos que moram fora do Brasil, era dizer que Guilherme seria livre para fazer qualquer coisa.

“Foi uma sorte eu não ter chegado à vida adulta como herdeiro de banco”, diz.

A trajetória de Ronaldo influenciou o filho em outra direção. Ao trocar o mercado financeiro pela política na época em que o Brasil estava definindo seus rumos na Constituinte de 1988, o pai abriu uma janela para o que é hoje o sentido da vida de Guilherme: a importância do que é público.

“Meu pai me dizia que dois dos maiores banqueiros brasileiros tinham cargos públicos como grande orgulho em seus currículos, por servirem ao Brasil: Olavo Setúbal (fundador do Banco Itaú, e prefeito de São Paulo) e  Walther Moreira Salles (fundador do Unibanco e embaixador do Brasil nos Estados Unidos)”.

Na opinião de Guilherme, essa descoberta foi “uma sorte sem tamanho”, porque acabou virando economista formado pela Stanford University tendo em mente a ideia de mudar o mundo.

As ideias para mudar o mundo ocupam 90% da área do amplo escritório que mantém com seu pai. Ali é o quartel-general da produtora de cinema Matizar, criada em 2004,  e das inciativas Republica.org, Mais Progresso.org e, em 2026, o movimento RioAgora.org. As quatro frentes se completam no objetivo que ele define como “luta armada”: contribuir para a organizações públicas que de fato melhorem a os serviços públicos e a distribuição de renda no Brasil. “E continuar fazendo cinema para aprender mais sobre o outro, e sobre mim.”

Rio de Janeiro

A paixão pelo Rio de Janeiro, tanto pela cidade quanto pelo estado, é o mote do RioAgora.org, movimento suprapartidário criado por Guilherme que reuniu especialistas de diversas áreas ao longo do primeiro semestre para formular um plano de ação para o Estado do Rio. As principais propostas foram apresentadas em evento realizado em julho no Museu do Amanhã.

 Elas estão consolidadas em documento entregue a todos os candidatos ao governo estadual, ao Senado e às Câmaras estadual e federal, com destaque para: gestão eficiente, transparência rigorosa, controle da corrupção policial e universalização da alfabetização infantil. O plano pode ser acessado em https://rioagora.org/

Em Vassouras, pai e filho exploram uma boa parceria. Na Fazenda São Fernando, o ambicioso projeto de reflorestamento com espécies da Mata Atlântica tem como esteio construído por Guilherme um convênio com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e é ponto importante do projeto de fazer do Vale do Café Patrimônio Cultural, Histórico e Natural da Humanidade.

Guilherme participa ativamente de tudo o que se relaciona ao Museu de Vassouras. É dele também a responsabilidade sobre o Instituto São Fernando, criado para “apoiar e qualificar o Estado (em suas diferentes esferas) trabalhando ao seu lado, e não em seu lugar”, como está definido no site da instituição. Em breve, a Fazenda São Fernando vai abrigar um centro de estudos e de pesquisa aplicada em gestão pública. “Um lugar de imersão para acadêmicos, servidores e cidadãos interessados em construir um país melhor e menos desigual”, resume.