Caroline Rocha
‘A ousadia vem do mato”, provocou uma das artistas da ArtRio, um dos eventos mais relevantes do calendário de artes da América Latina, realizada em uma das maiores metrópoles do Brasil. A declaração de Bárbara Banida, indicada ao prêmio PIPA 2026, surgiu na roda de conversa “Diálogos entre Arte Contemporânea e Popular Brasileira – Fazer com as Mãos”, no qual expositores e curadores buscavam borrar os limites entre os diferentes “modos” de fazer arte.
O próprio conceito de “arte popular” carrega uma história marcada por hierarquias. O termo surgiu na década de 1940, em um contexto no qual a categorização também ajudava a estabelecer uma diferença entre o artista e o “artesão”, geralmente associado a produtores de classes sociais menos abastadas.
“A verdade é que, no geral, esses indivíduos eram entendidos como artesãos. E, até mesmo, às vezes, só a obra era entendida como arte popular, enquanto o indivíduo era considerado um artesão”, explicou Lucas Beurque, gestor do Museu do Pontal e um dos participantes da roda de conversa. Segundo ele, essa produção, mesmo quando apresentava individualidade, estilo próprio e outros elementos característicos de uma obra de arte, era frequentemente compreendida como artesanato, fechando portas para o reconhecimentos de seus criadores.
Realizada na Axia Marina da Glória, a feira reuniu mais de 80 expositores, promovendo um espaço de descoberta, diálogo e troca entre artistas, galerias, colecionadores, curadores, profissionais do setor e o grande público. Em meio a obras de artes que ultrapassavam com facilidade os seis dígitos, a feira abriu espaço para discutir as diferentes formas de produção artística brasileira, inclusive aquelas que historicamente ficaram à margem dos circuitos tradicionais.
É nesse movimento que se insere o Programa Brasil Contemporâneo, com curadoria de Paula Borghi. Dedicado a práticas artísticas que privilegiam tecnologias manuais, o programa reuniu 12 galerias nacionais e artistas naturais de 14 estados brasileiros. A proposta é ampliar o olhar sobre a produção contemporânea do país, para além dos principais centros do mercado de arte, apresentando um recorte que, segundo a curadoria, proporciona “um frescor para o mercado da arte”.
Entre os nomes selecionados está a cearense Bárbara Banida. Em sua primeira participação na ArtRio, a artista parte das próprias referências para imaginar futuros possíveis pela ficção. As paisagens de manguezais de sua cidade natal, a relação íntima e livre com o meio ambiente e os vínculos com amigas e familiares aparecem como matéria-prima de suas obras.
“Meu trabalho tem a ver com criar outras formas, outros modos de viver em um planeta a caminho do colapso social, ambiental, econômico, político… A ficção é o que torna o impossível possível”, explicou Banida.
Em sua 16ª edição, a programação incluiu cinco dias de feira, com debates sobre artes visuais, música, cultura, carnaval, brasilidade, performance, moda e etc, além de exposições, polo gastronômico e área dedicada a editoras de livros.










