HOMENAGEM: ZICO VENCE O TEMPO

Filme sobre o craque se debruça sobre o fenômeno dos torcedores que não o viram jogar, mas repete a paixão dos mais velhos

Aydano André Motta

Dia 6 de fevereiro de 1990, uma terça-feira, nem era dia de jogo, mas exatas 99.622 pessoas, entre pagantes e convidados, foram ao Maracanã viver momento histórico: a derradeira vez de Zico como jogador profissional do Flamengo. Numa partida festiva, o camisa 10, perto de completar 37 anos, se despediu do clube, numa noite de extrema emoção.

O presidente do Brasil era Fernando Collor; a moeda, o cruzado novo (mudaria de volta para cruzeiro no mês seguinte); o país inteiro assistia a “Pantanal” na noviça TV Manchete; o Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado; e na Copa do mesmo ano, a campeã seria uma opaca Alemanha recém-unificada.

De lá para cá, poucas coisas sobreviveram à ação do tempo – uma delas, ligada diretamente à festa no estádio icônico: o culto a Zico. Num fenômeno único no futebol, o maior jogador da história do Flamengo segue idolatrado pelas gerações de torcedores que vieram depois, bem depois de sua aposentadoria. Trinta e seis anos se passaram e ainda hoje, torcedores de todas as idades, que nem eram nascidos quando o craque reinava nos gramados, se convertem à religião de fiéis tão apaixonados.

No fim do mês, um documentário vai se debruçar sobre a goleada de amor longevo que marca a biografia do eterno camisa 10 da Gávea. “Zico, o samurai de Quintino”, de João Wainer, oferece olhar original sobre a vida e a carreira do protagonista, investigando em diversas dimensões a personalidade única de um dos maiores jogadores da história do futebol. Ao revelar o arquivo pessoal do craque, o filme costura histórias e personagens da trajetória do ídolo no Flamengo, na Seleção e no Japão.

“Encontramos muita gente que idolatra o Zico, mesmo tendo nascido após ele ter parado”, confirma Wainer. “Acontece porque a paixão pelo futebol é transmitida de pai para filho e ele é especial porque, no Brasil, jogou a vida inteira no mesmo clube, algo que não acontece mais. É muito interessante ver como a lenda do Zico não para de crescer”.

O diretor acrescenta que viajar pela intimidade do ídolo decifra identidade surpreendente. Forjado no subúrbio do Rio de Janeiro, mas com valores e disciplina tão intensos que só os japoneses entenderiam, no recomeço fundador do futebol no outro lado do mundo, na aventura com o Kashima.

A figura pública de Zico, hoje com 73 anos, carrega perfeição de comportamento difícil de igualar. Os mais de 800 gols que marcou foram sempre festejados com a torcida do seu clube, sem jamais espezinhar ou menosprezar o público adversário, mazela tão comum nas gerações seguintes. O craque professou a alegria dos seus a vida inteira, numa permanente mensagem de esportividade e fraternidade. Além disso, inexistem registros de negligência ou falta de profissionalismo em sua encarnação nos campos.

A atitude cativa torcedores de todos as cores – mas entre os rubro-negros, ele tem status de deus supremo. “Meu filho não podia ter outro nome”, explica João Carlos Araújo, publicitário de 35 anos, pai de Arthur, de 8. “É pelo Zico, nosso ídolo maior. Lamento não tê-lo visto ao vivo em campo. Você viu né?”, pergunta, ao repórter. Diante da resposta positiva, desata a relembrar as histórias de conquistas e golaços, narradas pelo pai. “Meu filho será do mesmo jeito. E o filho dele também”, prevê.

Principal parceiro de Zico no maior Flamengo de todos, Júnior Maestro se escala como testemunha da magia que explica a eternidade da lenda. “Quem teve o privilégio de conviver com ele sabe que é um comportamento totalmente verdadeiro”, atesta. “Dentro e fora do campo, sem reparos, o que leva pais a transmitirem esses valores dentro de casa. Por isso, é impossível encontrar alguém que vá falar mal do Zico”. E o hoje comentarista tem aposta segura para o futuro. “Ele será reverenciado em qualquer lugar, em qualquer tempo”.

Júnior dá depoimento no filme, que tem participações de outros craques-fãs, como Ronaldo Fenômeno, além de entrevistas da mulher, Sandra, dos filhos e de amigos próximos. Produzida pela Vudoo Filmes e Guará Entretenimento, “Zico, o Samurai de Quintino” é coprodução da Globo Filmes, SporTV, Pontos de Fuga e Investimage, com patrocínio master do Sicoob e patrocínio da Tim e Austral.

O documentário reúne ainda vasto acervo do craque, com dezenas de fitas VHS, filmes Super-8 e objetos históricos – entre eles, a camisa 10 usada na final do Mundial de 1981 e um caderno com anotações detalhadas de gols ao longo da carreira. “As informações existiam, mas estavam todas espalhadas; agora, conseguimos organizar e apresentar os gols todos com tratamento de imagem de última geração, numa qualidade incrível”, relata o diretor. “A paixão vai aumentar daqui para frente”.