RIO CHEIO DE CHARME

Nascidos na cultura preta dos anos 70, as aulas e os bailes Charme ganharam a cidade

Luisa Prochnik

‘Temos?” A pergunta curta do professor de charme, Henrique Costa, aos alunos, ecoa pela sala de aula, na Glória. Esse “nós”, implícito no questionamento, é o elemento central do charme, ritmo que se dança junto, em grupo. Uma turma de uns 30 charmeiros iniciantes presta atenção e segue os comandos do professor. O ensino é quebrado em etapas, repassado sem música e, depois de algum treino, vem ela, cadenciada e sensual. A música traz a leveza e, ao mesmo tempo, percebe-se um grupo na mesma vibração, mas com cada um de maneira própria, com mais ou menos malemolência, com sorriso no rosto ou feições mais atentas, de aluno compenetrado, integrados, um olhando o outro, acompanhando o ritmo, mas encantando da sua própria maneira. Cena bem explicada na descrição de uma das alunas:

– O que eu mais curto é que a aula é muito animada, traz uma sensação de felicidade. É um negócio coletivo, e eu gosto muito desse espírito de comunidade. Adoro aquele clima na pista: todo mundo feliz, sorrindo, dançando junto e trocando essa energia boa – diz Fernanda Conte, economista, que deu seus primeiros passos no charme ainda este ano.

O objetivo é a sintonia total, nas aulas e nos bailes.

– A gente foca muito no acolhimento e no tempo da música. Eu passo uma sequência para a turma hoje. Na semana seguinte, bem no início da hora da aula, eu vou dar esse mesmo passo – explica Henrique, que dá aulas e trabalha com apresentações e performance técnica de dança, além de se divertir, seja com os alunos, seja nos bailes – Cheguei no primeiro baile, que era o baile black mais tradicional, e vi um pessoal da minha idade, uma galera que curtia a mesma ideia, colava em peso. Quando vi aquilo, vi que era isso que eu queria para a minha vida mesmo.

Elegância e estilo são palavras que caminham juntas no charme e encantam quem chega de primeira ao baile.

– O estilo do charmeiro raiz não é só o terno preto, mas a roupa mais larga. É o estilo dos anos 2000. É a calça cargo, calça mais larga. Tem o oversized, que são as blusas maiores. Durag na cabeça. Os acessórios, os cordões maiores, as blusas de basquete, aquelas botas tipo coturno. E o charme da pista é que todo mundo se veste bem. Isso entrou na minha vida e ficou. Era esse estilo que eu queria.

O Hip-Hop e o Funk têm uma batida mais acelerada. O Charme é aquela música mais cadenciada, mais melódica, para você mostrar o bailado do seu corpo.

Essa história de deslizar com elegância não nasceu ontem. Conforme a dissertação de Luciana Cruz, o termo “charme” foi cunhado pelo DJ Corello entre 1979 e 1980, no clube Mackenzie, no Méier. Ao notar a galera dançando R&B de um jeito sofisticado, ele jogou para a pista: “Chegou a hora do charminho, transe seu corpo bem devagarinho”. O movimento se desenvolveu em fases: os flashbacks (até meados dos anos 80), os midbacks (fim dos 80 e início dos 90, com o Urban R&B) e o charme contemporâneo.

Em pistas de flash back, sucessos do Funk Melody de Stevie B — que nos anos 90 viralizou com o hit “Rap da Monalisa”, uma licença poética para passar o famoso  verso “Give me a Reason” para o português — e o balanço de Latino com “Me Leva”, até nomes de referência nacional, como Tim Maia e Sandra de Sá. O “Rap da Diferença” é o que vem à cabeça de muitos cariocas quando o assunto é charme. Afinal, “Qual a diferença entre o charme e o funk? Um anda bonito e o outro elegante”. Outras diferenças entre os dois ritmos:

– O Hip-Hop e o Funk têm uma batida mais acelerada. O Charme é aquela música mais cadenciada, é aquela música mais melódica, para você mostrar o bailado do seu corpo. No Funk, por exemplo, o movimento usa muito o “passinho”, que está estourando muito nas comunidades com as competições. No Funk e no Passinho, você usa muito mais a agilidade das pernas, o movimento é frenético nos pés. Já no Charme, você usa mais o molejo da cintura, o balanço do tronco, a postura e a elegância dos braços – define Henrique.

É nesse balanço que chegamos ao Fat Family e ao Viaduto de Madureira. No mês de maio, o grupo se apresentou no espaço mais tradicional dedicado ao charme no Rio de Janeiro, em todo o Brasil, em comemoração aos 36 anos do evento, patrimônio imaterial da cidade. A origem tem vertentes diversas: de um lado, o Pagodão de Madureira (fundado em 1990); do outro, o projeto Charme na Rua (1994), dos irmãos Athayde. Independentemente de qual a versão sobre os primórdios, Luciana Cruz reforça em seu estudo que o viaduto é o maior símbolo da cultura preta e do orgulho suburbano no Rio.

Hoje, o Charme dominou o Rio Antigo, está presente na Zona Sul e tem sido convidado vip em festas de 15 anos e casamentos.

O Charme não fecha as portas, não é exclusivo ou restrito, ele abraça todo mundo — afirma Henrique. — A pessoa que às vezes não se sente aceita ou integrada fora dali, quando entra no baile, se sente parte de um lugar. Ela pensa: ‘Aqui eu pertenço’. Todos estão convidados! Dança, molejo, paquera, saúde e bem estar.

– Eu amo música e gosto muito de dançar. Eu encaro a dança também como uma atividade física, um movimento focado na minha saúde – completa Fernanda.

Que esse “charminho”, como já dizia o DJ Corello, continue se expandindo como um estilo de vida elegante, familiar e cheio de charme.