GASTRONOMIA: OS NOVOS ITALIANOS DO RIO

Polpetta ao sugo, no Giancarlo

Bruno Agostini

Giancarlo é o nome do filho do chef paulista com raízes italianas Matheus Zanchini Barrella. Giappo, por sua vez, vem de Giappone, ou seja, Japão em Italiano – seria como usamos no Brasil a palavra “japa”. Os dois restaurantes estão entre as novidades mais badaladas dessa temporada de verão no Rio, apontando uma tendência da gastronomia carioca em 2026: se no ano passado quem dominou o noticiário foram os novos franceses da cidade, agora parece que a Itália é a bola da vez, e há mais projetos em andamento, com previsão de inauguração nos próximos meses.

Em breve, mas ainda sem data definida, abre as portas o La Spiaggia no Village Mall, com um cardápio mediterrâneo, de pratos leves e refrescantes, com direito a um bar de carpaccio. Em seguida, entre abril e maio, segundo as previsões dos sócios, que são os mesmos do Clan BBQ, é a vez do Piano, na Dias Ferreira, no Leblon: “A gente vai usar muitos preparos na brasa, vai ter a nossa essência de usar o fogo. Vai ter um forno Josper lindo na cozinha”, adianta o chef Newton Rique, que divide a cozinha com Pepo Figueiredo, nas duas casas vizinhas. São novos nomes italianos que prometem marcar o ano de 2026.

Giancarlo, ou Gigi, é o filho do Matheus. O cozinheiro chegou ao Rio no meio de 2024 para assumir a cozinha do Pope, a convite dos empresários Edu Araújo e Jonas Eisengart. Eles dois são sócios desse e de alguns outros negócios de sucesso na cidade, com conceitos originais que mesclam boa comida e bebida com clima descontraído em ambientes bem bolados, desses que atingem em cheio ao público jovem. Quartinho, Chanchada, Fatchia, Guadalupe e Glorioso Sushi estão entre as casas do grupo.

“Foi na hora que o Jonas falou: eu tenho o nome, Giancarlo. Aí, eu consegui tecer a linha do que eu queria na mesa. Eu me teletransportei para os meus sete anos de idade, no corpo do meu filho, na mesa em que a minha nonna colocava a polpetta, a macarronada, tudo isso”, diz Matheus Zanchini Barrella. “Desde que cheguei ao Rio, eles me cobravam muito um projeto, uma ideia de um restaurante, e eu não conseguia desenvolver. O Giancarlo só veio porque o nome me despertou a ideia da mesa de família, que é o que você sentiu ali”, falou o chef, depois de ler uma resenha que escrevi (que está no site da Rio Já) sobre o restaurante.

A porchetta tonnata

Nela eu falo de como me senti acolhido e em casa ali, de como o lugar me despertou memórias antigas, de restaurantes tradicionais do Rio, desses que eu ia com a família quando criança. Destaco os pratos que comi, como a porção de língua ao molho ferrugem, sensacional, e uma deliciosa porchetta tonnata, ou seja, leitão com molho cremoso de atum, além de uma polpetta ao sugo que é simplesmente sensacional. Quando elogiei a almôndega, ele disse, sobre a receita: “Acho melhor que a minha, só que essa é a da minha vó”, lembrou. Sem esquecer da salada de batata com camarão… Muito boa.

O restaurante abriu em janeiro, causando fila na porta, com a proposta de ser uma trattoria de bairro, com jeito descontraído e ambiente acolhedor, familiar, que remete aos estabelecimentos populares do Rio dos anos 1970 e 1980. Conseguiram fazer isso.

“O Giancarlo tem muito essa coisa de ser um restaurante mais familiar. Uma coisa muito legal desse projeto é que a gente resolveu fazer uma viagem junto, todos os sócios. Ficamos uma semana. Fomos para Milão, depois pegamos um carro, e fomos dirigindo. Passamos pela Toscana, paramos em Parma, e depois Bolonha, antes de seguir para Roma. Foi uma experiência muito grande. A gente estava muito atento a tudo, fomos para coletar informações visuais, de pratos, de coquetelaria. Também vimos aquela coisa do aperitivo. Realmente é uma prática deles mesmo, de tarde, de você pedir um coquetel e receber um snack do bar. Esse é um projeto bem maduro nosso, que levou tempo, entre a ideia e a execução”, conta Jonas Eisengart, que além de empresário é artista plástico (ele que pintou o teto) e bartender.

O espaço é arejado, com decoração simples, feita de quadros que remetem à Itália, entre paisagens, quadros, fotos e cartazes de bebidas etc. Nos banheiros, há desenhos dos filhos dos sócios. O piso é de cerâmica, e há toalhas de papel cobrindo as de pano. Há detalhes interessantes, como o puxador da porta de entrada, em forma de farfalle, e uma cortina feita com penne.

“O Giancarlo sempre foi um projeto de trazer um pouco da trattoria italiana para Botafogo, mas também de trazer um pouco daquilo que está se perdendo ao longo dos anos, que são aqueles salões do Rio Antigo, como o do Bar Luiz, e de alguns que existem ainda, como o Bar Lagoa. É aquela coisa do pé-direito alto, as sancas. Botafogo está se desenhando muito para essa coisa noturna, de bares, porém a gente tá vendo que falta um acalanto aqui, sem barulho de carro, de música. É isso também no cardápio, uma comida simples, mas bem executada. É um restaurante da família. Tem realmente um pouquinho da gente em cada pedacinho. Arquitetura simples, agradável, nada salta aos olhos”, conta Edu Araújo, que está à frente, ainda, do café 18 do Forte e do Dainer.

Nao Hara, à frente do Giappo, no Jockey

Há outros nomes a despontar.

Giappo, como falamos, é como se fosse “japa” em italiano. Faz todo o sentido. Quem está no comando da cozinha é o chef Nao Hara (foto), referência na gastronomia japonesa no Rio, um obcecado artesão culinário, pesquisador e muito técnico, além de criativo.

Nao Hara, não é exagero dizer, é um dos nomes mais importantes da gastronomia carioca. É preciso lembrar disso. Foi um dos primeiros a apostar numa cozinha muito autoral, com menus degustação, e pequenas porções, o que era revolucionário ali no início dos anos 2000 (imagina servir sashimi de atum com foie gras na chapa e sorvete de shoyu em 2001?). Depois de fazer história no Shin Miura, Nao teve alguns restaurantes, até que há cerca de dois anos se associou a um grupo de empresários ligados ao setor de eventos. Assim, assumiu a cozinha do Masi, em São Conrado, no topo do icônico Hotel Nacional, projeto de Oscar Niemeyer. Com eles, desenvolveu desde o início o conceito desse restaurante.

Quadrucci coloratta: com corantes naturais

“Eles queriam fazer um restaurante italiano. Porque, claro, é um tipo de comida que todo mundo gosta. Eu achei que eu deveria fazer algo diferente, original. Que fosse muito italiano, mas que tivesse algo de novo, de colorido, de criativo, de autêntico, e também vi a possibilidade de fazer massas com novos formatos”, conta o chef.

Ele não se contentou apenas em comprar diferentes farinhas no mercado. Mas, criou uma própria, de mozzarella! Como assim?

“Eu desidrato e transformo em pó, que uso na massa, para dar elasticidade, principalmente. Cada massa tem uma receita diferente. Foram oito meses de pesquisas para desenvolver o menu. Testei uns 30 tipos de farinha, testei várias combinações entre elas, inclusive tipos de água. Desenvolvi vários corantes naturais que uso em um dos pratos que eu considero ícones da casa, o quadrucci colorata”, lembra ele, em referência a uma linda massa colorida, e recheada de queijo e ragu de vitelo com manteiga de shiitake, tão gostosa como bela.

Lasanha: cada massa tem uma fórmula

Então, é assim. O sorrentino é feito com massa que leva ovos e farinha 00 com 7% de proteína, resultando numa massa leve. Já o agnolotti só tem gema, além de farinha 00, mas com 12% de proteína, sendo uma massa leve e quebradiça. A teia de ravióli, por sua vez, é feita com água de baixa alcalinidade, além de farinha 00 com 7% de proteína, e a tal mozzarella em pó: fica leve e elástica. Tem ainda a lasanha, cuja massa leva ovos, farinha 00 com 12% de proteína, mas essa com semolina: mais densa, como grano duro. Isso, para citar apenas alguns exemplos.

O menu também tem entradas, quentes e frias, como o carpaccio de mignon levemente picante e tartelletta de atum com mozzarella e pérolas de limão em uma cestinha crocante e brusqueta com tataki de salmão e lâminas de vieiras trufadas. Também há pratos, devidamente aprovados, como o bombom de cupim com seu demi-glace e rigatone ao sugo (essa massa tem ovos, farinha tipo número 2 com semolina, um grano duro al dente, feito em máquina especial.

E outros nomes estão para chegar.

Spiaggia é praia em italiano. O novo restaurante que está previsto para abrir no fim de março terá 110 lugares, no terceiro piso do Village Mall, na Barra. Esse é um projeto bem pessoal do empresário Leo Rezende, da Pici Trattoria e do Glória Bistrô.

“Teremos um carpaccio bar, com uma grande variedade. A inspiração é mediterrânea, e fiz algumas viagens para a Itália para conceber o conceito: Sardenha, Puglia e Córsega, que também tem a ver”, adianta Leonardo.

Piano é devagar em italiano. Na principal passarela gastronômica do Rio, a Rua Dias Ferreira, a casa promete ser o contrário do seu nome: ligeira.

“Vamos tentar prezar pela qualidade, velocidade e excelência”, conta um dos sócios e chef do restaurante, Newton Rique. “Queremos usar as bases clássicas da cozinha, mas usando a nossa criatividade para entregar algo diferente. Queremos muitas preparações de carnes de longo cozimento, braseados por toda a noite. A gente vai ser muito pesado no mise-em-place, mas que seja uma antítese para o nome, Piano. A gente quer que a comida saia o mais rápido possível. Piano na hora de cozinhar, para criar aquela complexidade de sabor, mas rápido para soltar a comida. Também queremos explorar muito o mar e montanha, né, o surf & turf. Pratos de frutos do mar com caldo de frango, essas coisas assim”, conta o cozinheiro, que também enxergou uma oportunidade no negócio.

“Você vê a oferta de comida italiana no Leblon, e é quase inexistente, comparada a Ipanema, por exemplo”.

Ele tem razão… e o Piano vem para resolver a questão.

Bruschetta no Picolo: agora no Edifício Touring

OS ANTIGOS QUE SE RENOVAM

Nessa nova leva de restaurantes italianos, vale lembrar também de marcas que estão em expansão. O segundo semestre de 2025 viu nascer uma nova grife na gastronomia carioca: Sìsi Cucina & Deli, com três unidades no Rio, projeto do chef Pedro Siqueira, que desfez a sociedade com a Ella Pizzaria. A novidade tem a matriz, no Leblon, e filial no Parque das Rosas, na Barra; além da loja, em Botafogo, com produtos para entregas e retiradas, entre massas, molhos, pães e pizzas. Ou seja: podemos ir até lá, ou a Sìsi vem até nós (com a comida já pronta, ou só pré-preparada. Em tempo: Sìsí vem da palavra sim, simplesmente como os italianos costumam a falar, dobrado, para dar ênfase a uma afirmativa.

Il Picolo, como muitos sabem, significa “o pequeno” em italiano. Porém, são muito grandes as ambições do empresário Antônio Rodrigues, da rede Belmonte, com esse restaurante – que primeiro abriu as portas em Ipanema, em plena Avenida Vieira Souto, logo ao lado de sua flagship praiana. A segunda unidade da marca acaba de abrir as portas, ocupando um espaço muito nobre, a histórica sede do Touring, na Praça Mauá, agora um complexo gastronômico com várias operações tocadas por ele. (Leia mais no Alto Astral).

“É um restaurante sem frescura, que serve culinária italiana de raiz”, resume o empresário.

Outra rede que vem crescendo é a Oggi, que significa hoje em italiano. Inicialmente era apenas uma pizzaria, mas conforme a marca cresceu, o cardápio foi ganhando novos pratos, e as novas filiais são mais uma trattoria que serve pizzas do que uma pizzaria que tem menu com entradas, pratos e sobremesas. No ano passado abriram novas filiais em Botafogo e em Niterói, em Icaraí. Agora, no começo do ano, foi a vez da Barra ganhar a sua primeira unidade, no Shopping Metropolitano.

Daqui a pouco tem gente chamando a cidade de “Fiume di Gennaio: la traduzione letterale in italiano di Rio de Janeiro. Capisci?”