Bruno Agostini
Fotos de Selmy Yassuda
O nome vem do apelido da Ilha da Madeira, Pérola do Atlântico, origem dos três irmãos fundadores da casa. Em 1957 esse botequim abria as portas na Rua Siqueira Campos, quando Copacabana era o epicentro da vida cultural do Brasil, momento em que nascia a Bossa Nova e o Rio vivia os seus anos dourados, período envolvido em boemia, arte e muito agito social. Todo esse glamour estava impregnado no ar, e a Adega Pérola fez fama servindo petiscos, chope, vinho e bebidas quentes, num ambiente simples e informal. Durante décadas povoou o imaginário carioca como símbolo da botecagem, mas longe, muito longe, de ter a sua fama atual, construída a partir dos anos 1990, e consolidada desde 2010, quando a casa trocou de mãos.

Com dívidas e decadente, o bar estava à venda. Antônio Rodrigues, da rede Belmonte, começava a mostrar todo o seu apetite na aquisição de bares e restaurantes, e chegou a fazer proposta para comprar o lugar. Mas, um outro trio, destra vez de amigos, atravessou o negócio e conseguiu fechar o contrato para a compra. Depois de alguns dias fechada, uns três ou quatro, a birosca reabria para alívio de muitos, entre eles esse repórter que vos escreve e o amigo, colunista do jornal O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos, que noticiou em sua coluna Gente Boa, no Segundo Caderno: ‘A Adega Pérola, em Copacabana, abre hoje sob a direção de Marcelo Paulos, do Bar Cevada, na Serzedelo Correa: Da decoração aos roll mops de sardinha, nada vai mudar, diz Marcelo”. Mas, muita coisa mudou, e Joaquim pergunta: “… E os barris? Antigos frequentadores da Adega Pérola pedem que se aproveite a venda da casa para devolver ao ambiente os barris. Eles serviam de bancos quando a casa surgiu, nos anos 1950, turbinada pelos shows do Teatro Opinião, logo em frente”.
O balcão refrigerado com sua longa vitrine que exibe dezenas de petiscos se tornou um ícone da gastronomia carioca. A Adega Pérola virou estrela entre os botequins, atraindo moradores da cidade e uma legião de turistas, público que é turbinado pela imensa quantidade de vídeos e fotos postados nas redes sociais. Quem se acomoda no balcão para beber um chope e petiscar muitas vezes recebe pedidos dos visitantes para que deem licença, para que se produza conteúdo com o celular. A Adega Pérola tem isso, é um monumento que as pessoas querem ver, tocar e degustar, é local onde os amigos marcam de se encontrar antes (ou depois) do Maracanã, um ponto de referência. Lugar para ver e ser visto, para encontrar e ser encontrado.

Não era assim antes de 2010, quando os três amigos se juntaram para comprar a Adega Pérola. Os cariocas Marcelo Paulos, filho de portugueses, e Heitor Linhares, junto do português Ricardo Martins assumiram o botequim, que assim ganhou novo fôlego, e aos poucos voltou aos seus dias de glória. Passou a participar de concursos como o Comida di Buteco, e a figurar frequentemente nas listas de melhores bares do Rio.
Mesmo diante do caos causado pelas multidões, podemos elogiar o serviço cordial dos garçons e balconistas, que tornam o bar um lugar acolhedor. O chope tirado pelo Beto, com mais de 30 anos de casa, é impecável. Sempre fresco, chega diariamente, o que garante parte dessa qualidade. Ele é um festejado personagem da casa, parte importante da identidade do lugar. Foram pioneiros em ter cervejas artesanais brasileiras, e hoje podemos encontrar vinhos portugueses maduros, como um Tapada do Chaves 2017, que se mostra delicioso. Pode ir nas batidas, como a de maracujá e a de gengibre, as de que gosto, embora raramente peça. A seleção de cachaças, se não é muito grande, tem alguns bons rótulos, de várias procedências.
Tem um charme naquele ambiente com mesas para seis pessoas, que muitas vezes são divididas entre desconhecidos, e suas calçadas tomadas de gente de todas as partes. Nas manhãs de sábado tem um cliente que lembra o Roberto Carlos, e tem esse apelido, que mora na Baixada Fluminense e bate ponto por lá. Outra figurinha carimbada que está sempre por lá nesse dia da semana é o guitarrista Dado Villa-Lobos, que chega de bicicleta e geralmente bebe um vinho branco do lado de fora. Ali no balcão eu faço amigos, e fico sabendo que existem clientes que frequentam a Adega Pérola há mais de 60 anos. Eu moro em frente, frequento há mais de 30, e atualmente vou umas três vezes por semana, talvez quatro. De tarde eu sou recebido por sorrisos pelo China e pelo Araújo, que está num quadro na parede no qual eu também apareço, como jurado do prêmio Rio Gastronomia – aliás, há muitas condecorações de melhor bar do Rio, algo comum há anos.

O cardápio é visual, e boa parte dos petiscos está em exibição na vitrine refrigerada, com preços que aparecem em cartazes típicos de açougues e mercados, naquele amarelo gritante que nos chama a atenção. O petisco mais vendido é o vinagrete de polvo, digno de nota, que se torna ainda melhor quando regado com azeite em lata e a ótima pimenta da casa. Outro acepipe icônico são os rollmops de sardinha, conservas feitas com o peixe, que é uma consagrada especialidade da casa, aparecendo ainda em outros preparos, como escabeche.
O leque de opções para petiscar é vasto. Alguns itens são vendidos por peso (100 gramas) ou por unidade, como as ostras, os pedaços de queijo e até rabanetes, que são finamente fatiados – é inesperadamente delicioso isso. Assim como é irresistível o alho espanhol, que passa por processo de cura que amacia o seu sabor ao mesmo tempo em que lhe traz textura crocante (peça uma prova no palito). Podemos pedir azeitonas e tremoços, batatinhas calabresas e berinjelas em conserva, além de champignons em conserva, pimenta biquinho, e ovos de codorna. Há uma travessa com muita cebola fatiada, para a finalização, e os pães podem ser pedidos à parte.

Alguns petiscos são preparados na cozinha, com ingredientes que ficam nessa vitrine, como a morcela, a linguiça e os camarões. O bolinho de bacalhau tem de dois tipos: coquetel, comprado fora, e o grande, que é feito na casa, e minha firme recomendação se tiver que optar entre eles. Todas as noites, quando a massa é preparada, eles mandam uma porção para o gerente da noite, Juninho, que reina no balcão, com um misto de alegria e mau humor que faz parte do folclore local. Todos gostam dele, e às vezes dou a sorte de servir de cobaia para testar os bolinhos, o que faço com imenso prazer, e mesmo sem fome. Romário é o craque do serviço, e se desloca por todos os espaços com as suas bandejas carregadas de chopes e pratos com petiscos. Pensa numa equipe maneira, a Adega Pérola tem.

Há refeições substanciosas que muitos pedem no almoço, mas a verdade é que a maior parte dos clientes vai lá mesmo para petiscar e beber, para bater papo e para encontros amorosos, para reuniões de trabalho e outras finalidades – uma das mais comuns, hoje em dia, é abrigar turistas de AirBnb, que ali aguardam o horário de entrada em seus apartamentos, e fazem hora para ir para o aeroporto ou para a rodoviária. Para muitos, a Adega Pérola é quem dá as boas-vindas ao Rio, para outros é a saideira, quando não as duas coisas.
É um lugar que cumpre essa função social importante, uma referência no turismo, praticamente ponto de interesse aos visitantes que é destino obrigatório – e essa característica desagrada alguns, que reclamam dos preços, do excesso de gente e da perda de identidade etc etc etc. São uns chatos de galocha, e que bom que não visitam a Adega Pérola, não fazem falta.
São 11h59, eu vou me encaminhando para terminar esse texto, respondendo à pergunta que eu mais escuto quando o assunto é Adega Pérola: quais os petiscos que você mais gosta? Respondo mais ou menos assim, fechando uma lista de dez, com as minhas preferências, que podem mudar de acordo com o mês do dia, meu estado de espírito e o clima na cidade: Vinagrete de polvo, alho espanhol, morcela, bolinho de bacalhau da casa, rã à dorê com alho frito, linguiça no vinho tinto, cavaquinha, carne de siri, queijo de cabra (boursin), truta à escabeche, ovas de peixe, arenque ao vinagre, atum defumado, rollmops, iscas de linguado à escabeche, pérolas do mar… ihhhh… Já listei mais de 15. Vou parar por aqui, são mais de 70 opções, sem falar dos pratos… Tem até batata frita…

Já são 12h08, deu vontade de ir até lá para rever os amigos, olhar o e-mail e as mensagens do celular, e atualizar o site. Tem dias que eu trabalho debruçado do balcão. Peço um palito com uma unidade de alho espanhol para tira-gosto. Até num dia feio e chuvoso, a Adega Pérola tá linda. Aquele balcão deveria ser tombado. Patrimônio Cultural Carioca a casa já é, das mais antigas detentoras da placa da prefeitura. Em 2027 eles completam 70 anos. Uma joia de Copacabana, um monumento gastronômico e cultural. Tô indo para lá festejar. Te encontro no balcão.
Parabéns pra você, minha querida Adega Pérola.
SERVIÇO
Adega Pérola: Rua Siqueira Campos, 138 – Copacabana. Instagram: @adegaperola










