Jan Theophilo
A música começa com uma guitarra elétrica seca e um riff hipnótico, estribilho que é quase uma cantilena de rock psicodélico, logo cercado por baixo eletrônico, bongôs, e uma batida house, enquanto a voz de Sophie Hawley-Weld começa a declamar ritmicamente “com deus mi deito com deus mi levanto/comigo eu calo comigo eu canto/eu bato um papo eu bato um ponto/eu tomo um drink eu fico tonto”. A canção “Drinkee”, da dupla-norte americana SOFI TUKKER foi indicada ao Grammy de 2017 na categoria de gravação dance, mas sua letra foi composta em 1979 por um carioca chamado Ricardo de Carvalho Duarte, nascido no Rio de Janeiro em 24 de maio de 1951, e mais conhecido como Chacal, um verdadeiro monumento vivo da contracultura brasileira. “O engraçado é que eu nem gosto daquele poema. Não incluo nas minhas antologias. Mas para a música eletrônica é perfeito. É mântrico”, diz Chacal.
A história do sucesso mundial no século XXI de uma música composta quase 50 anos antes pelo maior símbolo da chamada geração-mimeógrafo, começou em 2014, quando Chacal foi convidado para participar de simpósios sobre literatura brasileira em Harvard e na Brown University, em Rhode Island. “Era um tipo de evento que acontecia todo ano promovido por professores brasilianistas. Naquele ano quem estava organizando eram uns professores meio doidos que resolveram chamar artistas, e principalmente artistas malucos”, lembra Chacal.
No fim da palestra na Brown, ele foi procurado por uma jovem estudante de literatura de origem alemã chamada Sophie, que disse admirar seu trabalho e o convidou para fazer uma performance juntos naquela noite. “Ela era linda. Não tinha como eu dizer não. E acabou dando supercerto”, lembra ele. Sophie tinha um namorado chamado Tucker Halpern, que era DJ de música eletrônica em Nova York. Ela mandou para ele a base da guitarra e os versos, do poema “Relógio”, e daquela mistura nasceu “Drinkee”. Chacal diz que a repercussão o surpreendeu. “Quando me mandaram a música pronta, eu confesso que fiz um certo doce para assinar o contrato. Achei que era uma brincadeira lá deles. Quando vi ela era a trilha sonora do lançamento mundial da propaganda do Apple Watch em 2015 e do MC Donalds na Austrália!”

Mas reduzir Chacal ao autor de um jingle do Big Mac é um contrassenso e um insulto. Ele foi um poeta marginal dos anos 1970, e nos anos seguintes esteve envolvido em alguns dos movimentos mais bacanas e vanguardistas no campo da poesia, jornalismo, teatro, música, performance, contracultura, e de uma maneira carioca de estar no mundo. Em 1971, aos 20 anos, ele publicou “Muito Prazer, Ricardo”, e cinco anos depois foi um dos selecionados para a antologia “26 poetas hoje”, que reuniu alguns dos principais nomes da chamada poesia marginal, ou geração mimeógrafo (para os mais jovens, uma máquina de cópia manual da época).
Não era exatamente um movimento literário organizado. O termo surgiu para designar uma produção que estava à margem do circuito editorial e cultural dominante. Era “marginal”, portanto, por voar abaixo dos radares da censura da ditadura militar. “Foi, sem dúvida, um divisor de águas, principalmente num plano acadêmico. Mas, pra te falar a verdade, a gente nem estava tão interessado assim em poesia. O que a gente queria mesmo era ser cantor de rock”, conta.
Entre o lançamento dos dois livros, Chacal viajou à Inglaterra, onde assistiu à icônica apresentação do poeta beat Allen Ginsberg no Festival Internacional de Poesia no Queen Elizabeth Hall. “Todos os poetas se apresentavam de paletó e gravata, todos sérios e compenetrados. Demonstrando que a poesia é uma coisa séria, que deveria ser respeitada”, lembra ele: “Nisso o Ginsberg entrou de macacão, barba desgrenhada, perna engessada e muletas. Berrou trechos de seu famoso poema Uivo (Howl) e puxou uma sanfona para cantar um blues. Eu fiquei pirado com aquilo”.
De volta ao Brasil, entre 1975 e 1979, Chacal participou do Nuvem Cigana, um coletivo que reuniu poetas, músicos e artistas, entre eles Charles Peixoto, Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, Guilherme Mandaro, Ronaldo Santos e Cláudio Lobato. A Nuvem Cigana fazia algo muito moderno para aquela época: misturava poesia, música, teatro, e performance em eventos chamados “Artimanhas”. “De repente a gente estava realizando aquele sonho de ser cantor de rock, mas como cantor de poesia. As Artimanhas tinham um ritmo forte, entra um, sai outro, poemas curtos. Era uma coisa intensa. Daí em diante eu fui.”

E foi mesmo. Chacal escreveu uma peça “Aquela Coisa toda” para o famoso grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone; participou da criação do Circo Voador, ainda no Arpoador, em 1982; foi roteirista da “Armação Ilimitada” na TV Globo e fez letras para nomes como a Blitz, Lulu Santos, Fernanda Abreu, Jards Macalé, 14 Bis e até para o Brylho. Foi quando ele esbarrou com o também poeta Guilherme Zarvos e juntos criaram o CEP 20.000.
O nome é uma sigla para Centro de Experimentação Poética, um tradicional evento cultural e palco de poesia falada, música e apresentações criado em agosto de 1990. É considerado um dos movimentos de contracultura e resistência poética mais longevos e pulsantes da cidade do Rio de Janeiro. Ao longo de suas mais de três décadas de história, recebeu mais de mil artistas. Por ser um palco de experimentação livre, ele serviu como trampolim e ponto de encontro para nomes marcantes da literatura, do teatro e da música brasileira, como Pedro Luiz e a Parede, Gregório Duvivier, Monobloco, Seu Jorge e Michel Melamed entre muitos outros.
“O Zarvos fazia um projeto na Faculdade da Cidade, na Lagoa, chamado Terças Poéticas. Ele convidava grandes nomes como João Cabral, Ferreira Gullar, mas o Zarvos sempre foi um cara irreverente. Então o que ele pensou? Vou botar os mestres e, no final, uma garotada para apresentar suas poesias”, lembra Chacal. “A garotada que ia ver os amigos, via os medalhões. E quem vinha ver os medalhões acaba conhecendo a garotada. Quando acabou, falei com o Zarvos que a gente tinha de dar um jeito daquilo continuar. O Zarvos tinha bons contatos, porque era cunhado do Darcy Ribeiro e assim conseguimos o Espaço Sérgio Porto”.
“Era uma coisa para durar três meses, mas era todo mundo maluco, você sabe. E, cara, hoje está fazendo 36 anos revelando gente e se renovando”, diz Chacal. “O CEP tem uma magia fabulosa. A garotada de 16, 17 anos vai lá e não acredita que aquilo possa acontecer. É muita informalidade, coisa ruim, coisa boa. Já tivemos muita banda de rock, mas isso hoje acabou. O que tem mais é poesia e música eletrônica”.
Para Chacal, essa mudança de perfil do CEP tem nome, sobrenome e número de decreto. Em 1999 o então prefeito Luiz Paulo Conde baixou o Decreto nº 17.282. Obrigando bares, restaurantes e casas de espetáculo a encerrarem suas atividades a 1h da manhã. “Aquilo matou a noite e a cultura do Rio entrou em decadência. Hoje a gente termina as 22h. Antes esse era o horário que o CEP começava sem hora para acabar. Viramos uma matinê”.
Por essas e outras, o poeta anda meio desanimado. “Independentemente do que acontecer na eleição, o meu sentimento é que a gente já perdeu. Hoje todo mundo só fica de olho no celular. E aquilo que vem pelo celular tem um dono. Essas Big Techs não deixam barato. É só recalibrar um algoritmo ali e pronto. As pessoas veem o que eles querem. Você pega o fim da cultura da noite, a ascensão do poder político evangélico, e a força dessas empresas e enxerga um cenário que se pretende à destruição da cultura, da criatividade, do livre-pensar, e assim numa época tão conectada, nós estamos para minha surpresa encaretando como nunca”.








