TURISMO: VISITAS MILINÁRIAS NO VERÃO DE BÚZIOS

Cidade e prepara para temporada de cruzeiros com mais de 100 escalas e potencial de movimentar centenas de milhões de reais

Marcelo Macedo Soares

O  azul do mar, o contorno de praias cercadas por morros, os passeios de barco e o charme de caminhar pela Rua das Pedras fazem de Armação dos Búzios um dos destinos mais desejados do litoral fluminense. Entre outubro e abril, quando a temporada de cruzeiros marítimos movimenta a cidade, esse cenário ganha ainda mais visitantes, vindos de diferentes partes do Brasil e do exterior, em busca de algumas horas de contato com as belezas naturais, a gastronomia e o estilo de vida buziano. Para a temporada 2026/2027, a expectativa é de uma intensa movimentação turística, com mais de uma centena de escalas programadas e um potencial expressivo de geração de negócios e empregos.

O calendário divulgado pela Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Búzios prevê 107 escalas de transatlânticos e 273.737 passageiros ao longo de sete meses, a partir de 18 de outubro de 2026, quando está prevista a chegada do primeiro navio, com desembarque no Pier do Centro. Entretanto, um levantamento da Búzios Tour Shop, uma das maiores empresas de turismo receptivo da região, aponta números diferentes: segundo Cesar Fernandes, CEO da companhia, a programação deve contabilizar 108 escalas, com capacidade estimada para aproximadamente 411 mil passageiros e 129 mil tripulantes.

A diferença entre as estimativas revela a importância de distinguir a previsão divulgada pelo município da capacidade total dos navios programados. Os números apresentados pelo empresário ainda precisam de um pequeno ajuste para excluir duas escalas de Cabo Frio. Além disso, a capacidade das embarcações não corresponde necessariamente à quantidade de pessoas que efetivamente desembarcam em Búzios.

“É importante explicar que esses números representam a capacidade total dos navios em cada escala. É dessa forma que conseguimos dimensionar o potencial de movimentação da temporada. Naturalmente, nem todos desembarcam, e esse percentual varia conforme o perfil e a nacionalidade dos passageiros e o tipo de cruzeiro”, explica Cesar Fernandes.

Janeiro concentra o maior fluxo de passageiros

De acordo com o calendário divulgado pela Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico, a temporada começa em outubro, com quatro escalas e previsão de 6.005 passageiros. Novembro terá 12 escalas e 41.060 visitantes. Em dezembro, estão programadas 24 escalas, o maior número mensal do período, com estimativa de 22.765 passageiros.

Janeiro deverá concentrar o maior fluxo de turistas, com 23 escalas e aproximadamente 95.530 passageiros. Fevereiro aparece logo depois, com 22 escalas e previsão de 80.295 visitantes. Para março, estão previstas 20 escalas e 21.765 passageiros. O encerramento da temporada ocorrerá em abril, com duas escalas e estimativa de 6.317 visitantes.

O calendário representa um aumento de aproximadamente 17,6% no número de escalas em relação à temporada 2025/2026, quando Búzios recebeu 91 paradas e cerca de 300 mil visitantes entre outubro de 2025 e abril de 2026. Apesar do crescimento no número de escalas, a previsão oficial de passageiros para o novo ciclo é inferior ao volume registrado no período anterior.

Para Cesar Fernandes, porém, a capacidade das embarcações e o perfil do público precisam ser considerados na avaliação do potencial turístico. O empresário vê a nova temporada com otimismo e destaca a força de Búzios como destino de cruzeiros.

“Búzios tem uma característica muito especial. É um dos destinos mais desejados pelos cruzeiristas que visitam o Brasil e um dos lugares onde os passageiros mais fazem questão de desembarcar. Isso acontece porque temos uma combinação muito atrativa de praias, paisagens, gastronomia e um Centro que pode ser visitado a pé”, afirma.

Praias, passeios

e gastronomia atraem

os cruzeiristas

Com um litoral marcado por praias de características variadas, mirantes e paisagens que convidam à contemplação, Búzios oferece diferentes possibilidades para quem dispõe de poucas horas em terra. A experiência pode começar com um passeio panorâmico para conhecer diferentes pontos do município, incluir uma excursão marítima ou se concentrar no Centro, entre lojas, restaurantes e as ruas que fazem parte da identidade turística da cidade.

Segundo Cesar, os passeios panorâmicos, como o Búzios Trolley, e os passeios de barco continuam entre os serviços mais procurados pelos passageiros. Há também quem prefira caminhar pela Rua das Pedras, conhecer o comércio e aproveitar a gastronomia local antes de retornar ao navio.

“O cruzeirista está cada vez mais interessado em experiências. Ele não quer apenas conhecer um lugar e tirar uma fotografia. Quer aproveitar o destino, experimentar a gastronomia, conhecer as praias e levar uma boa lembrança da visita”, observa.

O empresário ressalta que muitos passageiros estão conhecendo Búzios pela primeira vez. Nesse sentido, a escala pode funcionar como uma apresentação do destino, despertando o interesse de visitantes que, posteriormente, podem retornar para passar mais dias na cidade.

“Por isso, considero o turismo de cruzeiros também uma ferramenta muito importante de divulgação de Búzios no Brasil e no exterior”, acrescenta.

Navios podem reforçar

o movimento do comércio

A chegada dos transatlânticos movimenta uma cadeia de atividades que vai além dos passeios turísticos. Restaurantes, lojas, artesãos, transportadores, guias, marinheiros, empresas de receptivo e outros prestadores de serviços estão entre os beneficiados pela circulação de visitantes.

Embora a concentração de turistas seja frequentemente associada à possibilidade de sobrecarga do Centro, Cesar avalia que os horários de desembarque podem representar uma oportunidade adicional para os estabelecimentos comerciais.

“A maioria dos navios começa a desembarcar seus passageiros entre 7h e 10h da manhã, justamente quando a Rua das Pedras e o Centro estão mais vazios. Boa parte dos turistas hospedados em Búzios está nas praias ou ainda nem saiu dos hotéis”, explica.

Na avaliação do CEO da Búzios Tour Shop, esse movimento pode funcionar como um segundo turno de faturamento para parte do comércio, ao levar consumidores aos estabelecimentos em horários nos quais normalmente haveria menos movimento.

Ele também observa que os desembarques acontecem gradualmente, ao longo de algumas horas, permitindo que os passageiros se distribuam entre o Centro, as praias e os passeios turísticos, em vez de chegarem todos ao mesmo tempo.

O desafio operacional, segundo Cesar, aparece principalmente no retorno às embarcações. Como muitos visitantes desejam aproveitar ao máximo o tempo disponível em terra, parte deles deixa para voltar próximo ao horário do último tender, embarcação utilizada no transporte entre o navio e o cais.

“Hoje, nosso principal gargalo é a infraestrutura dos píeres, que contam com apenas dois berços para atracação das embarcações de transporte dos passageiros”, afirma.

Para o empresário, ampliar essa capacidade deve estar entre as prioridades para melhorar a operação. A expectativa é que, no futuro, projetos de infraestrutura proporcionem mais conforto e agilidade no embarque e desembarque. O ganho, segundo ele, seria duplo: mais tempo para o turista aproveitar a cidade e mais oportunidades para o comércio e os serviços locais.

Benefícios podem chegar a outras regiões da cidade

Embora o Centro concentre parte importante do comércio e da circulação de visitantes, os efeitos econômicos das escalas podem alcançar outras áreas do município. Os passeios panorâmicos, as excursões marítimas e as visitas a diferentes praias ajudam a distribuir a demanda entre profissionais e empresas de segmentos variados.

“Os passeios turísticos têm um papel fundamental nessa distribuição. Quando um passageiro faz um passeio panorâmico, visita diferentes praias ou participa de uma excursão marítima, ele movimenta toda uma cadeia de profissionais e empresas”, diz Cesar.

Essa cadeia envolve motoristas, guias, marinheiros, embarcações, transportadoras, restaurantes, estabelecimentos comerciais e diversos prestadores de serviços. Para o empresário, diversificar as experiências oferecidas aos visitantes é uma maneira de ampliar o alcance econômico da atividade.

“Quanto mais opções de passeios e experiências tivermos, maior será a capacidade de distribuir os benefícios econômicos dessa atividade pelo município”, avalia.

A movimentação, ressalta Cesar, também não se limita aos dias em que os navios estão na costa buziana. A preparação das operações, a manutenção, a logística e a contratação de serviços fazem parte de uma estrutura que gera trabalho antes mesmo do desembarque dos passageiros.

Outro público relevante é o dos tripulantes. Segundo a estimativa apresentada pelo empresário, entre 30% e 40% deles desembarcam durante os períodos de folga. Muitos acompanham embarcações que fazem escalas regulares e podem retornar à cidade 15 ou 20 vezes ao longo de uma temporada.

“Esses tripulantes acabam criando uma relação com a cidade, frequentam os mesmos restaurantes, fazem compras e utilizam diversos serviços. É um movimento econômico recorrente que muitas vezes não recebe a atenção que merece”, destaca.

Potencial econômico chega a centenas de milhões de reais

A dimensão financeira do turismo de cruzeiros também ajuda a explicar o interesse do setor na ampliação e qualificação das operações. Cesar cita um estudo da CLIA Brasil, realizado em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), segundo o qual cada passageiro de cruzeiro gera um impacto econômico médio de aproximadamente R$ 800 nas cidades onde os navios fazem escala.

Esse indicador considera os efeitos diretos, indiretos e induzidos da atividade. Portanto, não abrange apenas os gastos individuais com compras, alimentação e passeios, mas também a movimentação gerada nas empresas e nos serviços que atendem à operação turística.

Ao aplicar essa referência à capacidade dos navios previstos para a temporada, o empresário aponta um potencial econômico de centenas de milhões de reais. A estimativa, contudo, não deve ser interpretada como faturamento garantido: o resultado efetivo depende do número de pessoas que desembarcam, do comportamento de consumo e da parcela dos gastos que permanece na economia local.

Além dos passageiros, os tripulantes que aproveitam as folgas em Búzios representam uma demanda adicional para restaurantes, lojas e prestadores de serviços. Para Cesar, esse público ajuda a reforçar o movimento recorrente do comércio ao longo dos meses de operação.

O empresário também ressalta que os cruzeiros não devem ser vistos como concorrentes dos turistas hospedados na cidade, mas como uma fonte complementar de consumidores, especialmente em horários de menor movimento.

“Búzios já tem o principal, que é ser um destino extremamente desejado. Nosso desafio agora é continuar melhorando a infraestrutura, a organização dos desembarques e a qualidade dos serviços para que possamos aproveitar cada vez melhor esse potencial”, afirma.

Com a temporada 2026/2027 distribuída entre outubro e abril, Búzios terá mais uma oportunidade de apresentar suas praias, paisagens, gastronomia e experiências a visitantes brasileiros e estrangeiros. O desafio será transformar o fluxo de passageiros em benefícios econômicos duradouros, ampliar a distribuição dos resultados pelo município e garantir que a experiência de quem chega por mar estimule novas visitas ao destino.

“No final, quanto melhor for a experiência do visitante, melhor será o resultado para toda a economia de Búzios”, conclui Cesar Fernandes.