Luisa Prochnik
Esta poderia ser apenas mais uma matéria repleta de estatísticas trágicas sobre a população de rua do Rio de Janeiro, mas o caminho da reportagem é o oposto: um registro sobre a teimosia de existir. Enquanto a cidade apressa o passo para não ver quem habita as calçadas, existe um casarão em São Cristóvão onde os invisíveis tornam-se vistos, considerados, ouvidos e incluídos. A forma mais potente para essa inclusão se estabelecer é pela troca de olhares. O Ambulatório da Providência não é apenas uma unidade de saúde; é um espaço de resistência para quem a sociedade ignora, mas que insiste em sobreviver. Mais do que oferecer um prato de comida ou um remédio, o projeto entende que, se uma pessoa busca ajuda, essa ajuda deve proporcionar a possibilidade real de ela se reconectar com o mundo e retomar o controle da própria história.
– Atendemos o excluído do excluído. Aquela pessoa que você atravessa a rua para não passar perto. Aquele jogado na sarjeta, drogado e alcoolizado – diz a médica Dra. Maria Inêz Linhares de Carvalho, com o conhecimento de quem vive o problema há décadas.
Endocrinologista, Dra. Maria Inêz, atualmente, divide sua rotina entre o consultório particular e a linha de frente no Ambulatório. Nos anos 80, cinco anos após formada em ginecologia, ela começou a atender populações marginalizadas na Vila Mimosa, tradicional e histórico reduto de prostituição no Rio de Janeiro. Desde lá, o trabalho com os excluídos nunca mais parou: a partir de 1984, os primeiros casos de HIV foram diagnosticados no mundo, chegando ao Brasil, e a médica testemunhou o vírus dizimar pessoas à margem da sociedade que morriam de forma indigna nas calçadas. O choque de realidade e a ciência de que o problema só ia aumentar fez Dra. Maria Inêz fundar, em parceria com a igreja católica, o Ambulatório da Providência, em 1989, mantendo um convênio filantrópico com o SUS. Desde 2006, no entanto, o local tornou-se uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, sem fins lucrativos, contando unicamente com a doação de sócios-colaboradores e empresas privadas.
Mais triste do que ver alguém excluído é ver essa pessoa tentar ser vista e não encontrar espaço. O Ambulatório da Providência é um desses raros lugares onde não há desvio de olhar, mas encontros.
Atualmente, embora o cenário médico de combate ao HIV tenha evoluído, com coquetel de remédios e propagandas para prevenção, a luta continua no Ambulatório, mas com o foco em moradores de rua dependentes químicos, que enfrentam graves problemas de saúde mental — pessoas que buscam nas substâncias uma anestesia para suas dores e traumas emocionais.
Enfermagem, assistência social, religiosa e psicológica, além de cuidados médicos, acesso a remédios, banho, roupas limpas e tratamento digno, a rotina no Ambulatório da Providência é intensa. O grupo de psicólogas voluntárias, liderado pela Maria Cecilia Linhares — conhecida carinhosamente como Cila —, reúne-se todas as sextas para dinâmicas de grupo e, caso necessário, atendimentos individuais. Acompanhada de duas psicólogas mais jovens, o trio debate qual o tema a ser tratado no dia. Esse planejamento cuidadoso garante que o atendimento seja mais que uma conversa, mas, também, uma intervenção focada no resgate emocional daqueles que chegam diretamente das ruas.
O processo de socialização e acolhimento começa já na porta: só entra quem cumprir o acordo principal, que é não chegar alterado pelas drogas e álcool. Na portaria, Luana Rosendo atua como filtro. Ela analisa quem tem condições de entrar, mas, mesmo se a entrada não for permitida, por quebra de acordos e medida de segurança, ninguém vai embora de estômago vazio.
– Eles voltam. E ainda pedem desculpa: “Eu sei que eu estou errado”. E quando não entram, a gente dá o café da manhã lá fora. Eu não deixo eles saírem daqui sem comer, entendeu? A gente até libera o almoço, mas eles não entram. Eles voltam para buscar na hora do almoço. A gente não deve negar comida nem para quem a gente não conhece, imagine para quem a gente conhece – explica Luana.
Para o Ambulatório, a desobediência aos acordos não tem como objetivo punir, mas gerar aprendizado. Esses combinados servem para organizar vidas desorganizadas pelo caos; eles são passos importantes para o indivíduo entender que cuidar do espaço comum é voltar a cuidar de si mesmo.
Carlos, um dos moradores de rua, chega no limite do horário para a entrada e, por pouco, não é barrado na porta: pontualidade é outro acordo do espaço com o assistido. Ser um filtro e organizar a entrada não esconde os sentimentos de Luana com o que vê, pelo contrário: ela cuida de todos e as lições do dia a dia cuidam dela.
– O começo de tudo é ter amor ao próximo. Eu entrei aqui quando eu tinha perdido meu pai, eu já não tinha minha mãe e, para mim, era o fim do mundo. Então, aqui eu encontrei força para lutar, para viver pelo meu filho e por mim – emociona-se Luana.
Antes, as bolsas dos visitantes eram revistadas, até punhais já foram encontrados. Hoje, a revista não é mais necessária: há um espaço onde os moradores de rua deixam e trancam seus pertences. O ambiente deve ser seguro para todos, desde aqueles que o frequentam até os voluntários. Após guardarem seus pertences, a dignidade começa a ser imediatamente resgatada com um banho quente, roupas limpas e um café da manhã reforçado.
“O começo de tudo é ter amor ao próximo. Eu entrei aqui quando eu tinha perdido meu pai, eu já não tinha minha mãe e, para mim, era o fim do mundo. Então, aqui eu encontrei força para lutar, para viver pelo meu filho e por mim” (Voluntária Luana Rosendo)
Quando a dinâmica de grupo começa, o ambiente se transforma. As psicólogas buscam a essência do humano através do toque, do cheiro e, principalmente, do olhar. Muitos chegam sem conseguir encarar ninguém de frente, com a autoconfiança destruída. O trabalho clínico é, entre tantas outras buscas, trazer o olhar deles de volta. Além da roda, há atendimentos individuais para os casos mais sensíveis, como o de Leandro. Com o semblante pesado, ele confessa que desistiu de seguir nesse mundo após perder a mãe. Para ele, o uso abusivo de substâncias é uma forma de anestesiar feridas que não cicatrizam. Entre a solidão e o desejo de partir, Leandro encontrou na Dra. Cila um contrato de vida imediato:
– Resiste até sexta-feira – pede ela a Leandro – até sexta, para a gente batalhar pela sua internação.
O amor por uma sobrinha de 10 anos é o que ainda o mantém ancorado à realidade e reestabelecer esse vínculo rompido é uma das metas da psicóloga.
Outro a ter uma sessão individual, Edmo é o exemplo da virada. Ex-morador de rua e viciado, ele hoje trabalha no Maracanã. Seu orgulho é usar o auxílio governamental para comprar iogurtes, carnes e biscoitos para os três filhos, que não via há alguns anos. Edmo carrega uma história difícil: no passado, um desentendimento familiar grave resultou em uma agressão da sua parte que tirou os movimentos das pernas de sua própria irmã. Atualmente, ele busca a redenção pela sinceridade e pelo trabalho duro, enquanto, sendo religioso, é aconselhado a conversar com sua mãe, que já partiu sem ele ter a chance de se despedir, através da prece e de sua fé
Para que histórias como a de Edmo floresçam, a assistente social Roseli Oliveira reforça que o querer de quem procura o ambulatório é o motor para a mudança, e o acolhimento que lá encontram é o combustível. O incentivo para que os laços familiares sejam refeitos é o passo decisivo para que o morador de rua retome o controle da própria vida, largando vício e recobrando suas responsabilidades e sociabilidade.
Mais triste do que ver alguém excluído é ver essa pessoa tentar ser vista e não encontrar espaço. O Ambulatório da Providência é um desses raros lugares onde não há desvio de olhar, mas encontros.
Ambulatório da Providência
Instituição filantrópica que sobrevive exclusivamente de doações e do trabalho de profissionais voluntários. Caso queira contribuir, acesse o site: https://www.ambulatoriodaprovidencia.org/.
DOENÇA MENTAL NÃO TEM CEP
Por transitar diariamente entre o seu consultório particular e o Ambulatório da Providência, a médica Maria Inêz observa que o sofrimento mental é um fio que atravessa todas as classes sociais. Segundo ela, enquanto no setor privado os dramas muitas vezes se escondem atrás de demandas estéticas ou pequenos incômodos existenciais, no Ambulatório a dor é exposta, nua e ligada à sobrevivência. A depressão não escolhe CEP, mas a rede de apoio, sim. Onde uns têm acesso a tratamentos de ponta, outros têm apenas a calçada. Essa dupla vivência dá à médica a autoridade para afirmar que a maior diferença entre seus dois públicos não está no que eles sentem, mas no quão invisível o sistema permite que um deles se torne.
Segundo pesquisa Ipsos publicada ano passado, em 2025, para 52% dos brasileiros, saúde mental é o principal problema de saúde do país, ultrapassando a preocupação com o câncer. Um aumento significativo em relação a 2018, quando apenas 18% dos entrevistados tinham a mesma percepção. Para 80% dos brasileiros, a população em geral não consegue arcar com uma boa assistência à saúde. Os principais desafios apontados são os longos tempos de espera por atendimento (43%) e a falta de investimentos (39%).
Segundo dados exclusivos obtidos pelo portal g1 junto ao Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de afastamentos do trabalho por doença em 2025, o maior número dos últimos cinco anos.










