PALMAS PARA O NASCER DO SOL

Na contramão dos que apaudem o pôr do sol, milhares de cariocas se habituaram a cultuar a beleza do sol nascente, bom para os olhos e para a saúde

Texto: Luisa Prochnik
Fotos: Sebastián Taborda

Imagine se pudéssemos contar o passar do tempo através das cores, e não mais dos números? Isso é possível durante o amanhecer, quando o céu vai do azul-escuro ao azul-claro, da escuridão para a claridade, passando por tons de lilás, rosa, vermelho, laranja e amarelo. É nessa mudança rápida de cenários, modificados a cada minuto pelo caminhar do sol, que o fotógrafo uruguaio Sebastián Taborda, da Arte Focal, radicado no Brasil há mais de 20 anos, ajusta a todo instante o seu equipamento fotográfico. Ele reposiciona o flash e o tripé para se adaptar e tirar da natureza bruta o que há de mais belo e impactante aos olhos humanos. Para Sebastián, e para um grupo de cariocas que ocupa a orla e as ruas antes dos primeiros raios de sol, essa faixa de horário funciona como o momento mais importante do dia. Seja por ser a hora de trabalhar, no caso do fotógrafo e dos professores de educação física, seja pelo lazer e pelo autocuidado, o amanhecer proporciona uma atmosfera mágica todos os dias na rotina da cidade e daqueles que o vivem já acordados.

– É uma das expressões mais incríveis e impactantes da natureza. O novo dia traz energia e oportunidade -, diz Sebastián, que inicia o ensaio na Praia Vermelha, na Urca, de casaco, e o finaliza já com roupa adaptada ao dia no Rio de Janeiro.

– É a natureza se mostrando. Ela se mostra e te convida: ‘Vamos embora, vamos viver a vida! – explica Marta Amaral, aluna da SportsMix, assessoria esportiva que atua diariamente na Praia Vermelha com natação no mar, corrida e treino funcional na areia.

– A gente sente uma conexão mesmo com a natureza, sente que faz parte de algo maior. Um sentimento de cuidado, entendeu? E relaxa. Você pensa: “Vai, porque tem coisas que transcendem a gente, e nós estamos aqui fazendo parte” – diz Maria de Lourdes Tavares, também aluna da SportsMix, que chega para nadar quando ainda há estrela no céu.

– Toda a minha energia está na manhã. Acho que quando a gente acorda para a vida, é assim – completa Marta, frequentadora do local desde criança e que se autodenomina uma ‘pessoa da manhã’.

O bem-estar relatado por quem acorda cedo tem explicação no corpo. A primeira luz da manhã avisa ao nosso relógio biológico que o dia começou. Essa regulagem contribui para um sono mais tranquilo, mais tarde, melhora o humor e dá a energia ideal para enfrentar os desafios e curtir o que a vida oferece.

Enquanto Sebastián e outros fotógrafos aproveitam o espetáculo como cenário para retratos — sejam individuais, de casais, famílias ou apenas focados na paisagem —, atletas e professores ocupam a orla, a areia e o mar com aulas de natação, stand-up paddle, corrida e funcional. No inverno, todos ali enfrentam não apenas a escuridão, mas o vento e o frio, considerando, claro, que se trata de um frio no estilo carioca, com os termômetros na casa dos 15 graus. Uma das profissionais presentes na Praia Vermelha, fundadora da SportsMix e professora de Marta e Maria de Lourdes, é Cristiane Pançardes, a Cris. Ex-atleta de natação em piscina, Cris trocou o interior do estado pela capital há 15 anos e passou a se dedicar aos estudos do nado em mar aberto.

– O mar nunca está do mesmo jeito. Todo dia estou aqui e nunca peguei a mesma praia igual. Correntes e ventos mudam o treino diariamente -, conta Cris, que envia planilhas individuais para os alunos aos domingos. Marta, arquiteta aposentada, acompanha Cris na areia, ainda bem encasacada. Ela conta que, para ter energia cedo, começa a se preparar para dormir às 21h do dia anterior: esforço que vale a sensação boa de ter se cuidado antes de o restante do Rio acordar.

– Às dez da manhã você já nadou, correu, já está em casa com tudo pronto -, diz.

Logo ao lado, Maria de Lourdes Tavares Cavalcante faz polichinelos para aquecer o corpo antes de cair na água. Servidora da UFRJ, ela precisa nadar até 7h30 para dar tempo de chegar ao trabalho, na Ilha do Fundão, às 9h. Lourdes vê o hábito como um carinho consigo mesma.

– É um momento de muita conexão comigo, me preparando para o dia. Sinto que faço parte de uma coisa maior -, compartilha.

Sob o comando de Cris, Lourdes ajusta os óculos e entra no mar enquanto o azul-escuro perde espaço para os tons dourados.

Todas as manhãs, em cantos diferentes da cidade, entram em cena, também, os feirantes. Cadastrados junto à Prefeitura para trabalhar nas feiras livres cariocas, esses simpáticos e tradicionais personagens dominam as ruas muito antes de os atletas amadores acordarem. Às 2h30 da madrugada, é hora de ir para o Ceasa, em Irajá, o grande mercado que centraliza a produção que vem da Região Serrana e de outros cantos do país. Ali, os caminhões descarregam frutas e legumes frescos que, horas mais tarde, ocupam as calçadas das zonas Sul, Norte e Oeste. Essa dinâmica do comércio de rua é uma tradição de 122 anos no Rio, tendo sido criada em 1904 pelo então prefeito Pereira Passos. Ele quis modernizar o abastecimento da capital e organizou as feiras sob regras de higiene e horários. Hoje, a prefeitura contabiliza 165 feiras livres oficiais ativas na cidade, além de 35 feiras orgânicas.

É nesse cenário de cores, cheiros e ofertas gritadas que trabalha Domingos Pinto da Fonseca, que, no dia da entrevista, estava em uma feira em Copacabana. A barraca de Domingos carrega uma história de mais de um século: pertencia ao tio de seu pai, um dos pioneiros do modelo na cidade. Domingos assumiu o ponto em 1977, aos 15 anos, quando o pai ficou doente, mas já ajudava na feira desde os 11. Ele guarda na memória o tempo em que a feira mandava no pedaço.

– No meu começo não existia mercadoria em saquinho, a venda era só a quilo e a feira era o único lugar para comprar essas coisas -, lembra Domingos, que viu de perto como o público mudou ao longo das décadas. – Antigamente, as donas de casa tinham a manhã livre para a feira. Hoje, são mulheres independentes, que trabalham fora -, explica. Essa mudança na rotina das clientes faz com que Domingos e outros feirantes sugiram esticar o horário de funcionamento das feiras das 13h para as 14h, adaptando as ruas ao ritmo da vida moderna.

Essa mesma mulher contemporânea, que corre para dar conta do dia, apresenta-se, na praia, diante da lente do fotógrafo. Sebastián Taborda, entre os diversos estilos de ensaios fotográficos realizados na Arte Focal, dedica-se a sessões individuais que valorizam a beleza feminina sob a luz do amanhecer. Ele explora o lado mais espontâneo de cada cliente, do jeito que elas se sentem à vontade, permitindo que se revelem com amor-próprio e confiança diante da câmera. Sebastián aproveita a transição rápida da luz e o sossego da praia vazia para deixar quem posa bem relaxada e envolvida. O impacto ao ver o resultado é imediato.

– Ninguém imagina realmente como vai ficar. Uma coisa é ver uma foto bonita do amanhecer; outra coisa é você se ver dentro dessa paisagem, fazendo parte da natureza -, conclui.

Ao juntar a arte da fotografia com o suor dos treinos e a rotina dos feirantes, o amanhecer deixa de ser só um horário no relógio do Rio de Janeiro. É o cenário onde a cidade escolhe recomeçar todos os dias, quando o tempo pode ser contado em cores.

Serviço:

Arte Focal – Produções Fotográficas

@artefocal_imagem

Equipe Sports Mix

Natação no mar e funcional

@equipesportsmix

www.equipesportsmix.com