FASHION MALL TENTA MAIS UMA VEZ

Após 18 anos descendo desembestado ladeira abaixo, o shopping vai ganhar sobrevida

Jan Theophilo

Em outubro de 1982, enquanto o Brasil discutia eleições diretas para governador pela primeira vez desde o golpe de 1964, e o rock nacional ainda engatinhava nas rádios FM, um grupo de empreendedores decidiu que o Rio precisava de um lugar imponente o suficiente para que a elite carioca pudesse fazer compras a fim de assustar quem chegava perto do fim do mês fazendo contas preocupado depois do jantar. Nascia o São Conrado Fashion Mall, o primeiro shopping center “butique” a abrir as portas na cidade, batizado com nome em inglês para deixar claro, desde a primeira sílaba, quem era o público-alvo. 

Apelidaram-no logo de “templo da moda”. Na inauguração, uma cidade e meia passou horas ao telefone tentando descolar um ingresso para conhecer as lojas que representavam o melhor e mais caro da moda e joalheira brasileira e internacional; e ver se era verdade que o piso de mármore belga preto aparentava um efeito quase líquido quando a luz do sol entrava pelas claraboias. Mas o tempo é um inimigo sorrateiro, e a soberba pode cegar os mais talentosos.  Após 18 anos descendo desembestado ladeira abaixo, o Fashion Mall vai ganhar sobrevida.

A Glória Participações, holding especializada em investimentos imobiliários formada pelos empresários Raphael Galhano, também sócio da gestora Artesanal Investimentos, e Daniel Pierro, que participa de negócios como o Copacabana Mar Hotel e o Copacabana Rio Hotel, comprou o centro comercial. Ele, a princípio, continuará funcionando normalmente, mas a nova proprietária pretende explorar o potencial construtivo do terreno para desenvolver torres residenciais de alto padrão sobre a estrutura existente. A expectativa é que o projeto de revitalização devolva protagonismo ao empreendimento.

Em meados do mês passado, a reportagem de Agenda do Poder esteve no Fashion Mall para conferir a situação do Shopping. Encontrou o centro comercial às moscas, com dezenas de lojas fechadas, obras sem funcionários, e até os banheiros com um odor, digamos, não condizente ao que se encontra em shoppings de luxo. Até o cinema muitas vezes tem sessões para um único e solitário espectador. É um paciente em estado terminal. Nem o piso sobrou.

“Olhando hoje você não consegue acreditar que um dia você teve aqui lojas Versace, Jean-Paul Gaulthier ou da Missoni”, diz a cabeleireira Júlia Soares, que trabalha no shopping há mais de 20 anos. “A gente via as coisas boas saindo e nada entrando no lugar para substituir. Há uns 10 anos, a Jacques Janine saiu do térreo para uma loja 50% maior no segundo andar porque não dava conta dos clientes. Hoje a loja só sobrevive graças aos clientes mais antigos aqui do bairro”, completa ela. Por todo os lados se veem marcas de infiltração e cheiro de mofo. “Acho que a única loja que está aqui desde sempre é o MC Donalds do térreo, e graças à garotada da Rocinha”, comenta o segurança Júlio de Castro. 

Na data de sua estreia, o mix de 157 lojas parecia um sumário da alta moda nacional e internacional, além de restaurantes que definiram a gastronomia carioca. Grifes icônicas como a Fiorucci, a Company (febre da juventude dourada da época), Georges Henri, e a requintada futilidade da boutique de moda praia Blue Man dividiam espaço com joalherias do calibre de H. Stern e Amsterdam Sauer. Na gastronomia, o cenário não era menos imponente. O shopping abrigou filiais históricas e restaurantes badalados, incluindo o requinte do Antiquarius e o efervescente Gula Gula. O colunista social Zózimo Barrozo do Amaral brincava que conseguir uma mesa nesses estabelecimentos aos sábados à tarde exigia mais influência política do que paciência na fila.

Por tudo isso e muito mais o Fashion Mall tornou-se o quartel-general dos paparazzi cariocas. Fotógrafos de agências e das revistas de celebridades passavam os dias de plantão nos corredores ou disfarçados nos cafés. “Pegar um ator do escalão principal da Rede Globo fazendo compras com a família, ou almoçando com uma nova namorada era garantia de capa”, conta a ex-fotógrafa da revista Caras Luciana Cabral. O shopping era o cenário de “vida real” das celebridades, que desfilavam de óculos escuros fingindo fugir das lentes que secretamente adoravam atiçar.

Mas nenhum capítulo traduz melhor o espírito do Fashion Mall do que o fenômeno chamado Club Chocolate. A loja se destacou como um espaço inovador, reunindo moda, joalheria, floricultura, sex shop, espaço multimídia e restaurante em uma área de 1.800 m², projetada pelo arquiteto Isay Weinfeld e com conceito de Giovanne Bianco. O Club Chocolate transformou o segundo piso do shopping em um território sagrado para os fashionistas, atraindo uma clientela que incluía de supermodelos internacionais a herdeiros de fortunas daqui mesmo. 

A loja operava como um termômetro cultural do Rio da era pré-internet, ditando o que seria tendência nas novelas e nas festas da alta sociedade. Diversas grifes que mais tarde se consolidaram no mercado nacional começaram por ali, expondo suas primeiras peças entre as araras de marcas que a maioria dwwos cariocas e simpatizantes sequer conhecia. Sua existência simbolizou o apogeu e a glória do Fashion Mall: um lugar onde o consumo era tratado como uma experiência multissensorial e artística. “Mas que no auge começou a apresentar problemas inexplicáveis. Os fornecedores começaram a receber com atrasos enormes, quando recebiam. Acho que tem gente na justiça até hoje”, conta Juliana Almeida, ex-compradora da Club Chocolate.

Quando o Fashion Mall foi inaugurado em 1982, o Rio vivia a primeira grande onda de consolidação dos shoppings centers, contando com pouquíssimos concorrentes de grande porte, como o pioneiro RioSul (1980) e o recém-nascido BarraShopping (1981). Demograficamente, a região de São Conrado e da Barra era um deserto verdejante quando comparada ao adensamento urbano do século XXI. A Barra, por exemplo, tinha menos de 30 mil habitantes, e São Conrado era um enclave isolado de mansões e condomínios fechados em meio a uma natureza selvagem. O shopping, portanto, funcionou como um polo de atração magnética para consumidores endinheirados, ávidos por uma experiência de nível “internacional”, em um cenário comercial ainda muito dominado pelo comércio de rua de Copacabana e de Ipanema. O Fashion Mall oferecia conveniência e luxo com total segurança e exclusividade. Mas aí a concorrência acordou.

“Quem matou o Fashion Mall foi o Shopping Leblon”, crava com certeza o vendedor Jurandir Perdigão. “Muita gente acha que o Village Mall depois jogou a pá de cal. Mas não é bem assim. Nosso público era essencialmente da Zona Sul e do Jardim Oceânico. E não queriam pegar engarrafamento até o fim da Barra para fazer compras”, conclui. Bem, se non e vero, é bene trovato, como dizem os italianos. Mas é preciso fazer ressalvas. O Shopping Leblon foi inaugurado em 2006 e, sim, levou de arrastão os consumidores de Ipanema e Leblon. Já o Village Mall começou a ser construído em 2010 e abriu as portas oficialmente em 2012. A partir daí, o processo de esvaziamento se tornou visível e documentado por moradores e imprensa.

Os novos concorrentes, mais modernos e focados estritamente no mercado de altíssimo luxo, “roubaram” as principais grifes internacionais esvaziando o público tradicional de São Conrado. Reportagens do jornal Valor Econômico detalham que a debandada de marcas como Louis Vuitton e Gucci iniciou um efeito dominó de vacância do qual o shopping nunca se recuperou totalmente. E a percepção pública do shopping mudou de vitrine de status para curiosidade nostálgica.