EDITORIAL: O RIO É IMPRESSIONISTA

"Impressão, Nascer do Sol", de Claude Monet

Há exatos 15 anos, o fotógrafo uruguaio Sebastián Taborda trocou a vida calma do interior do estado, que habitava havia cinco anos, juntou suas traquitanas e  equipamentos e mudou-se para a Capital, onde passou retratar os diferentes momentos do dia nas praias e pontos turisticos, e teve uma súbita revelação que transformou sua vida. É bastante provável que o hoje conhecido profissional, que atrai a simpatia dos que como ele adoram acordar cedo, dia ainda ameaçando nascer no horizonte, com a adoção deste novo meio de vida soubesse que naquele momento estava emulando um dos maiores artistas plásticos da história da humanidade: nada menos do que Claude Monet, que 144 anos antes, na França, tornou-se o fundador e maior representante do Impressionismo, estilo de pintura cuja essência não é a fixação em padrões tradicionais de cores e pinceladas realistas, mas, antes, a sensação variável que a pessoa tem diante de cada objeto ou ser desenhado e pintado.

Obcecado pela produção da arte da sensação que o sol, a claridade, a escuridão, as variações de luz e clima exercem sobre a realidade, Monet fez de sua pintura “Impressão, nascer do sol no porto de Havre”, em1872, a obra que deu origem a uma escola de pintura que mobilizou dezenas de grandes artistas e exerceu influência de 40 anos sobre as artes plásticas. Mas Claude Monet radicalizou. Alugou um espaço fixo diante da Catedral de Rouen, e aqui Rio é apenas trocadilho involuntário, e ao longo de três anos, exatamente da mesma posição, retratou o prédio em todas as horas do dia – 31 quadros iguais, mas completamente diferentes pela maneira como são vistos.

Nesta edição, ‘Rio Já’ presta mais do que devida homenagem ao gênio que fez história ao inventar uma nova forma de expressar sua arte pictórica e, por mais improvável que possa parecer, a século e meio de distância no tempo, ao simpático fotógrafo que percebeu como o Rio de Janeiro, que o adotou com afeto, pode ser tão encantador quando o sol se põe quanto especialmente maravilhoso quando o astro-rei se apresenta ao povo, nas primeiras horas do dia. Felizmente, isto virou moda e mania.

O Rio de Janeiro, que se tornou famoso, nos bons tempos do horário de verão, pelo fato de o povo na beira da praia aplaudir o sol que se punha, agora passou a usar o direito de dar boas-vindas à claridade que, como no conceito impressionista, muda de tom, de cor e de beleza a cada minuto que passa – entre o breu da noite e a fulgurante claridade de uma cidade banhada pelo sol quase o ano inteiro.

Não há dúvida de que tal história merece capa numa cidade de relevo e beleza que fazem dela um museu a céu aberto, como mostra Luisa Prochnik.

Também merece chamada na capa o tributo que Bruno Agostini presta a alguns dos mais famosos e deliciosos pratos cariocas que, pela qualidade e popularidade, conquistaram o direito de serem chamados com nome e sobrenome. Como na matéria da Luisa, Bruno também vai buscar na história o seu conteúdo. E chega, salivando, ao filé Oswaldo Aranha, à sopa Leão Veloso, à peixada Antônio Houaiss, aos camarões à Galinho de Quintino – e está mito longe de parar por ai. O leitor saberá onde encontrar as melhores versões dos pratos com sobrenomes famosos.

A ‘Rio Já’ tem muito mais do que isto.

Muito. Saboreie!