Jan Theophilo
Imagine que você foi indicado para ser fiscal do paraíso. Uma região de matas nativas, visuais incríveis, cachoeiras, e quase 400 ilhas em um mar de águas muitas vezes cristalinas. Só tem um problema, junto com o salário vem um oceano de problemas: enfrentamentos com milionários que querem tornar suas praias exclusivas, traficantes de animais e de alguns combustíveis não necessariamente naturais, especulação turística e imobiliária, o único complexo nuclear do Brasil e pescadores que não estão nem aí para qualquer regra, lei, ou respeito aos períodos de defeso (quando a pesca é paralisada para permitir a reprodução das espécies). Essa encrenca atende pelo nome da chefia da unidade do IBAMA na Costa Verde do Rio de Janeiro. E a missão acaba de ser aceita por uma verdadeira guerreira: a bióloga Victoria Caroline, de 27 anos, preta, linda e a primeira quilombola a chefiar uma unidade de conservação no país.
“Nos últimos anos, pelas razões que todos conhecem, a atuação do IBAMA na região estava quase inócua. Por isso, levei para chefiar nossa unidade técnica uma das nossas mais jovens e respeitadas servidoras”, conta o superintendente do IBAMA no Rio de Janeiro, Rogério Rocco: “a chegada dela na região representa a retomada das ações de fiscalização, mas tem ainda uma alta representatividade em razão dela ser parte das populações tradicionais e conhecer seus hábitos, valores, culturas e saberes”.
Victoria nasceu no Quilombo de Maria Joaquina, composto por 120 famílias que vivem na divisa entre Búzios e Cabo Frio. “Lá eu vivi uma infância especial, subia em árvore, me sujava brincando na rua. É praticamente uma vida do campo. Muita gente vive do que planta, colhe ou pesca”, conta. Filha mais nova de um metalúrgico com uma técnica de enfermagem, ela conseguiu estudar Ciências Biológicas na UFRJ graças ao SISU. “Minha família é um exemplo de como políticas sociais sérias podem mudar realidades. Minha irmã, mais velha, por exemplo, só conseguiu se formar em Letras graças ao Pro-Uni”, diz ela com um sorriso deslumbrante que contrasta com a submetralhadora que às vezes precisa carregar no dia a dia.
Andar armada é muitas vezes uma necessária precaução nesse emprego. Durante o Regime Militar, toda a região da Costa Verde viu a especulação imobiliária salpicar casas menos ou mais luxuosas, em praias, ilhas e encostas da região – a maioria sem nenhuma documentação – como quem joga orégano sobre uma pizza. “Eu diria que a fiscalização é a principal frente do nosso trabalho”, conta ela. São casos como o do Condomínio Laranjeiras, em Paraty, onde metade do PIB do país tem seu casebre “pé na areia”, e é recorrente a necessidade de abrir os acessos à praia para os demais mortais. “E sempre nesses casos a gente é tratado com aquela arrogância que só a elite brasileira parece ser capaz de praticar”, diz ela. É por essas e outras que os técnicos do IBAMA são treinados pela Polícia Federal no manejo de armas de fogo para casos extremos.
E nesse quesito cabe quase tudo. Victoria conta que certa vez, logo após assumir o cargo, um rapaz que tinha alugado uma casa de praia com amigos no AirBnb estranhou uma tartaruga marinha presa no que parecia ser um tanque de criação de peixes. “Na verdade, era uma piscina natural, que recebia água do mar. E nesse processo as águas levam larvas de águas vivas, anêmonas, que se fixam em rochas ou paredes. Até que alguém teve uma brilhante ideia: se as tartarugas comem plantas marinhas, vamos tacar uma lá dentro”, lembra. Inicialmente, os inquilinos acreditavam que o animal entrava e saía do local livremente, mas, ao perceberem que ele permanecia preso, acionaram as autoridades ambientais. Seguiu-se um show de horrores.
“Chegamos lá e estava tudo errado. A dona da casa, que exigia ser tratada apenas por doutora, tinha bloqueado o acesso à praia e só entramos na casa porque ela estava com o pagamento do caseiro atrasado e ele, indignado, colaborou conosco”, conta Victoria. A tartaruga foi retirada com segurança e encaminhada ao Centro de Reabilitação e Despetrolização (CRD) de Itacuruçá, em Mangaratiba, onde passou por avaliação médica veterinária. O laudo técnico apontou séria desnutrição. O animal passou por dois meses de reabilitação antes de ser reintroduzido na natureza. A praia foi liberada.
Olhando assim, parece só mais um caso de estupidez ou incúria. Mas nos últimos anos, a cobiça, a desinformação e o desmonte dos aparatos de proteção ambiental no Rio de Janeiro facilitaram tais absurdos. O estado já teve unidades técnicas do IBAMA em Campos, na Região Serrana, Cabo Frio e Costa Verde. “Hoje só sobrou a nossa unidade e o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), em Seropédica”, lamenta Victoria.
Outro campo importante da atuação dela é a fiscalização permanente de feiras livres onde animais selvagens são vendidos clandestinamente. É quase uma operação de inteligência. Primeiro, técnicos do IBAMA de outras regiões (para não serem reconhecidos) circulam pelas feiras identificando esses contrabandistas. “Já peguei um cara vendendo um filhote de onça-parda por R$ 5 mil”, lembra Victoria. Mas nem sempre os animais apreendidos são tão exóticos. A maioria das apreensões são de jabutis, papagaios ou iguanas. “A gente sempre se impressiona com os valores que eles dão para a vida animal. Um jabuti pequeno, por exemplo, sai a R$ 50, já um papagaio, fica entre R$ 200 e R$ 300”, diz a chefe da unidade. Para efeitos de comparação, um papagaio comprado em um criadouro legalizado pode custar entre R$ 3 mil e R$ 4 mil – algumas espécies chegam a R$ 7 mil.
A chegada dela na região representa a retomada das ações de fiscalização, mas tem ainda uma alta representatividade em razão dela ser parte das populações tradicionais e conhecer seus hábitos, valores, culturas e saberes
Alguns dos casos mais midiáticos envolvendo irregularidades ambientais na Costa Verde aconteceram pouco antes de Victoria assumir a chefia da unidade, como a famosa polêmica do lago artificial da mansão de Neymar em Mangaratiba. “Tudo ali foi malconduzido e acabou gerando uma repercussão bem negativa, principalmente pela postura do pai dele, que desacatou os fiscais, mas não recebeu voz de prisão. Vai um madeireiro fazer isso”, diz ela. Segundo as autoridades municipais, as modificações estruturais propostas pelos engenheiros contratados por Neymar não tiveram autorização legal para ser tocadas. No relatório, de 46 páginas, constam outras infrações que foram verificadas na propriedade do jogador, como desvio de curso de água, captação de água de rio sem autorização, captação de água para lago artificial, terraplanagem, escavação, movimentação de pedras e rochas sem autorização e uso de areia de praia sem autorização ambiental.
“Só sei te dizer que por aqui não temos registro de nenhum pedido relacionado a esse projeto”, diz Victoria. Em 2024, após um embate legal que se arrastava desde 2023 e gerou uma multa de R$ 16 milhões a Neymar, a Justiça anulou a punição e liberou o lago-piscina, para o banho do ex-jogador em atividade e seus parças, alegando ausência de provas de danos ambientais. Pois é. “A gente enfrenta muitas dificuldades porque está sempre lidando com gente rica, poderosa e influente na política da região. Enquanto isso, as comunidades quilombolas, caiçaras ou indígenas são tratadas como agressivas, sempre como pessoas que estão reivindicando direitos que não tem”, reclama.
Não que os nativos sejam exatamente uma flor de consciência ambiental. Muitas ações são realizadas contra a pesca industrial ou contra a prática durante o período de reprodução das espécies. “As pessoas acham que estamos atrapalhando, que não deixamos pescar. Mas não é isso, a gente está disposto a orientar. Porque a pesca não é só uma atividade econômica, ela é cultural também. A gente não quer proibir, quer que ela seja regulamentada porque, no fim das contas, esses recursos são finitos”, conta .
“Isso sem falar em espécies que são muito procuradas por serem iguarias em outras partes do mundo e eu hoje não sei se meus netos vão conhecer, como os ouriços ou os pepinos do mar”, conta. O quilo desse invertebrado custa uma bobagem em torno dos R$ 17 mil. Achou barato? Ainda existe uma outra modalidade de pesca que busca capturar peixes ornamentais raros. Dentre os mais procurados estão o Peixe Koi e o Dragão-Azul, este último, se em bom estado, pode chegar a dezenas de milhares de dólares entre colecionadores.
“A gente enfrenta muitas dificuldades porque está sempre lidando com gente rica, poderosa e influente na política da região. Enquanto isso, as comunidades quilombolas, caiçaras ou indígenas são tratadas como agressivas”
E como se todos os problemas listados acima não fossem suficientes, traficantes de drogas e milicianos agora também fazem parte da paisagem somando mais um cardume de problemas. “Tem vezes que recebemos uma denúncia ambiental e quando chegamos no local não dá para fazer nada porque tem do lado uma boca de fumo”, conta Victoria. Mas o pior é a grilagem descarada.
Mas mesmo com tantas adversidades, e um salário de técnico de R$ 3,4 mil que é um terço do que ganha um analista ambiental (que faz a mesma coisa), Victoria não desanima. “Aqui eu vi tudo que eu queria fazer a nível de ambientalismo: preservar a fauna e a flora da melhor maneira possível, melhorar os oceanos. E acredito que essas coisas só vão acontecer quando alinharmos fiscalização com educação ambiental”, diz ela: “É um trabalho de formiguinha, mas estou aqui convicta de que podemos fazer os dois”.








