CIDADE: A NOVA GUARDA MUNICIPAL

Com novo uniforme, mais ostensiva, combatendo crimes menores, a força se declara armada, mas não que ser vista como perigosa

Caroline Rocha

Quem andou pelas regiões sul e central do Rio de Janeiro nos últimos dias provavelmente deu de cara com alguns “pontinhos” amarelos pelas ruas. O uniforme chamativo, longe de qualquer tentativa de discrição, e a presença de uma pistola à cintura denunciam de imediato quem são: agentes da Força Municipal, a nova divisão de elite da Guarda Municipal do Rio.

A criação do grupamento ganhou forma após decisão do Supremo Tribunal Federal, em fevereiro de 2025, que reconheceu a constitucionalidade de leis municipais autorizando guardas a atuarem diretamente em ações de segurança urbana. Amparada por esse novo entendimento jurídico, a Força Municipal entrou em operação em 15 de março.

Passado pouco mais de um mês desde sua estreia nas ruas, no entanto, a novidade ainda desperta dúvidas entre os cariocas. O principal ponto de estranhamento recai sobre o armamento, elemento que aproxima visual e simbolicamente a atuação da Força daquela exercida pela Polícia Militar, borrando fronteiras que antes pareciam mais nítidas.

Diante desse cenário, a ‘Rio Já’ reuniu 9 perguntas e respostas para esclarecer quem são, afinal, e o que fazem esses “pontinhos” amarelos que passaram a ocupar o cotidiano da cidade.

1.Quem são os agentes

da Força Municipal?

A Força Municipal é formada por guardas municipais concursados que passam por um processo seletivo interno. A proposta, segundo o prefeito Eduardo Cavaliere, é reunir “os melhores agentes” da corporação para compor o grupamento e submetê-los a um treinamento específico

2.Qual o treinamento para ingressar?

O caminho até a Força Municipal começa com um processo seletivo dividido em cinco etapas: avaliação da ficha profissional, investigação social, exames de saúde e toxicológico, teste de aptidão física e avaliação psicológica. Aprovados, os agentes seguem para o Curso de Formação, conduzido por instrutores da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). No currículo, estão conteúdos que vão do manejo de armamento e técnicas de tiro a abordagens policiais, condução veicular, uso diferenciado da força e aspectos legais da atuação.

3.O que faz, de fato, a Força Municipal?

A atuação é preventiva e ostensiva, com foco no enfrentamento de roubos, furtos e delitos de menor potencial ofensivo em áreas públicas. As equipes operam a partir do chamado Quadro de Missão Dirigida (QMD), ferramenta pela qual recebem suas missões diárias. Assim, segundo a Prefeitura, o agente só deixa a base com roteiro definido: trecho a ser patrulhado, horários e forma de atuação.

4.Qual a diferença entre a

Força Municipal, a Guarda

Municipal tradicional e

a Polícia Militar?

A Força Municipal concentra-se nos chamados crimes de rua, como roubos, furtos, receptação e casos de violência interpessoal, incluindo ocorrências relacionadas à Lei Maria da Penha. Já a Polícia Militar atua em um espectro mais amplo, que inclui crimes de maior gravidade e operações de maior complexidade, como o combate ao crime organizado e ações de retomada territorial.

5.Caso um crime mais grave, fora

do escopo da Força, ocorra na área de patrulhamento de um

dos agentes, o que é feito?

Caso se deparem com ocorrências fora do seu escopo, os agentes devem acionar os órgãos competentes, conforme orientação da própria corporação.

6.Onde a Força Municipal atua?

 Neste primeiro momento, o patrulhamento se concentra em áreas das zonas Sul, Central e Oeste, são elas:

•Jardim de Alah

• Rodoviária, Terminal

Gentileza e Estação Leopoldina

• Avenida Presidente Vargas,

Campo de Santana, Central do Brasil

e Cinelândia

• Campo Grande (entre a estação de

trem e o calçadão)

• A expansão já está prevista:

a região da Tijuca, com foco na Praça

 Afonso Pena e no entorno da São

 Francisco Xavier, deve passar a

contar com o grupamento a partir

de 26 de abril.

7. Quais bairros ainda

receberão o patrulhamento?

A distribuição das equipes segue a chamada mancha criminal, espécie de “mapa de calor” que identifica áreas com maior incidência de ocorrências a partir de dados como registros policiais, horários, dias da semana e sazonalidade. Ao todo, 22 regiões foram mapeadas para receber o patrulhamento de forma gradual, sem calendário público detalhado. São elas:

1. General Osório – Nsa Sra da Paz

2. Arpoador Atlântica

3. Atlântica -Barata Ribeiro

4. Posto 1 – Leme

5. Rio Sul

6. São Clemente – Voluntários da Pátria

7. Praia de Botafogo –

Marquês de Abrantes

8. Praça Santos Dumont –

Parque dos Patins

9. Sub área Américas – Lúcio Costa

10. Avenida Ayrton Senna

11. Estação Maracanã – UERJ

12. Méier – Cachambi

13. Estação Del Castilho x

Norte Shopping

14. Estação Madureira –

Madureira Shopping – Mercadão

15. Estação Marechal Hermes

16. Bangu: Calçadão – Bangu Shopping

17. Campo Grande:

Estação de Trem – Calçadão

18. Estação de Santa Cruz –

Santa Cruz Shopping

8. Qual equipamento eles usam?

O patrulhamento é feito por viaturas, motocicletas ou a pé, sempre em duplas ou trios. Os agentes portam pistolas calibre 9 mm e dispõem de ao menos outros dois equipamentos de menor potencial ofensivo, como tonfa, spray de pimenta ou lacrimogêneo e dispositivos de condução elétrica. Todos utilizam câmeras corporais e têm seus deslocamentos monitorados em tempo real por GPS.

9. O que foi feito até agora?

No primeiro mês de atuação, a Força Municipal contabilizou mais de mil ações operacionais, 807 abordagens e a condução de 215 pessoas a delegacias, resultando em 116 registros de ocorrência. Segundo Cavaliere, o período transcorreu “sem disparar nenhum tiro”.