Lucila Soares
Um encontro de artistas plásticos de várias gerações e estilos ocupa e colore o grande espaço de exposições da Casa Brasil, no Centro do Rio, tendo como identidade comum o fato de serem fluminenses. Não no sentido futebolístico, para esclarecer logo de início. São 97 obras de 60 artistas do Estado do Rio, por nascimento ou adoção. Daí o nome da exposição – Casa Fluminense – que reforça o território de um estado frequentemente confundido com sua capital, por séculos capital do Brasil. Como a mudança é recente, vale lembrar: Casa Brasil é, desde novembro de 2025, o nome da Casa França-Brasil, que entre 1990 e 2025 foi um dos principais centros culturais cariocas.
Nesse espaço, nascido e criado em francês, no lindo projeto neoclássico de Grandjean de Montigny, arquiteto oficial da Missão Artística Francesa que chegou ao Brasil em 1816, acontece o encontro dos fluminenses. Logo de cara, um pierrô gigante rouba a atenção. É o trabalho da dupla Gabriel Haddad (37 anos) e Leonardo Bora (39), ambos cariocas, carnavalescos responsáveis pelo desfile da Unidos de Vila Isabel em 2026, com o enredo sobre Heitor dos Prazeres. O passeio continua com nomes internacionalmente reconhecidos, como a carioca Anna Bella Geiger, 91 anos, e Iole de Freitas, 81, nascida em Belo Horizonte mas radicada no Rio há décadas, e outros muito mais jovens fora do circuito das galerias.
Um deles é Edu de Barros, 34 anos, que comparece com “Summer eletrohits”, trabalho que mistura personagens reais e simbólicos ou religiosos do cotidiano carioca, remetendo ao clássico “Jardim das delícias terrenas”, do pintor belga Hieronymus Bosch (1450-1516). Outro é Marcos Cardoso, de Maricá, 66 anos, que foi pescador até os 22 anos e depois enveredou por uma respeitada carreira artística. Sua marca na mostra é uma instalação com mais de três mil bambolês coloridos, que foi batizada de “Cercadinho carioca”. De Campos dos Goytacazes vem Lucia Laguna, 85 anos, que retrata o cotidiano de morros e subúrbios de Niterói, um recorte do trabalho que a Sociedade Fluminense de Fotografia realiza desde os anos 1940. A curadoria é de Aliã Guajajara Waimiri, Cadu, Jocelino Pessoa, Marcelo Campos e Tania Queiroz, também diretora da Casa.
Além de “Casa Fluminense”, a Casa Brasil abriga a exposição “Cada cabeça é um mundo”, de Melissa Oliveira, onde o público tem acesso a uma série fotográfica sobre o cotidiano das barbearias em comunidades cariocas. Natural do Morro do Dendê, na Ilha do Governador, a artista retrata profissionais que movimentam a economia criativa em territórios como Jacaré, Manguinhos e Chatuba.
A praça – O interessante desse encontro é que ele reconta da história do prédio inaugurado em 1820 como Praça do Comércio. Tânia Queiroz, diretora da Casa, explica que “praça” no sentido de então, referia-se ao lugar de comercialização de bens de trocas, de negociações e encontros. Um grande mercado, então à beira-mar, que funcionava em torno de uma praça interna. Os barcos chegavam e descarregavam as mercadorias no atracadouro que ficava nos fundos. Enquanto durou o tráfico de escravizados, parte do desembarque também acontecia ali.
Além da exposição “Casa Fluminense”, a Casa Brasil abriga a “Cada cabeça é um mundo”, de Melissa Oliveira, onde o público tem acesso a uma série fotográfica sobre o cotidiano das barbearias em comunidades cariocas
Atualmente, a Casa dá fundos para a Orla Conde, caminho que liga a Praça Mauá à Praça Quinze depois da demolição da Avenida Perimetral, concluída em 2014. Inaugurou em novembro de 2025 uma entrada pela Orla, o que chama a atenção de um público que está ali para passear e entra por curiosidade. A entrada principal continua voltada para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A poucos metros dali está o Centro Cultural dos Correios, tudo na Rua Visconde de Itaboraí, que é fechada para carros e cheia de bares e restaurantes. Uma nova e grande praça, agora no entorno, onde circula um público que vem de todas as regiões da cidade.
Tania Queiroz, que assumiu a direção da Casa em 2022, cargo que acumula com o de diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, comemora a restituição da ideia de praça ao espaço. Internamente, com o grande encontro de artistas tão diversos. E externamente pela articulação com instituições culturais e o polo gastronômico-etílico que se formou ali – além da grande área de lazer que se tornou a Orla Conde. O afluxo de público mostra o sucesso dessa articulação. No primeiro fim de semana da mostra – 11 e 12 de abril –, a Casa recebeu cerca de três mil pessoas por dia.
“Nossa programação é complementar à do CCBB e à dos Correios. Eu, o Ednor (Medeiros, diretor do Centro Cultural dos Correios) e a Sueli (Voltarelli, gerente geral do CCBB) nos alinhamos para sempre somar”, diz.
A Casa Brasil foi rebatizada em novembro de 2025 para valorizar seu papel na História do país. Tania lembra que a Casa foi inaugurada com uma exposição de artistas de todo o país, depois de uma grande reformulação do espaço, patrocinada pelo Ministério da Cultura, pela Petrobras e pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Na inauguração, abrigou uma exposição de 57 artistas de todo o Brasil. Tania planeja uma programação que valorize a arte fluminense e brasileira, com abertura também para exposições internacionais. A Casa oferece também cursos livres e gratuitos.
“Celebramos este novo momento da Casa Brasil com uma grande ocupação da cultura do nosso estado, que é tão rica e potente”, diz Danielle Barros, secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa.
As exposições “Casa Fluminense” e “Cada cabeça é um mundo” ficam em cartaz até o dia 8 de julho, de terça a domingo, das 10h às 17h. Rua Visconde de Itaboraí, 78. Entrada gratuita.








