‘Essa moça tá diferente, já não me conhece mais. Está pra lá de pra frente, está me passando pra trás”. Troque a moça cantada por Chico Buarque pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Sim, a Lagoa está diferente. Novos quiosques com atividades físicas para todas as idades e de todos os tipos, almoços voltados à família e noitadas com música diversa e público animado. Academia e quadras de beach tennis, tênis, basquete e futebol. Espaço dedicado à corrida, além dos 7,5km de ciclovia, localizado no Parque das Figueiras, com pista de 400 metros. Mas ela, a Lagoa, está muito, muito diferente e principalmente no que se refere ao luxo da contemporaneidade: mais limpa, arborizada e frequentada por animais marinhos, que há muito tempo não navegavam por lá.
De manhã cedo, mal o sol nasce, a orla da lagoa é tomada por atletas amadores. Tendas com assessorias esportivas, homens e mulheres de todas as alturas, cores e metas, acompanhados ou sozinhos, de fones, tranças, tênis coloridos, com cachorros, carrinhos de bebê e alguns cantando enquanto correm. “Oi, que bom te veeeeer”. Corredor não para e cumprimenta corredor, a simpatia dura o tempo do contato visual e fim. Simpatia que aparece muitas vezes na hora de olhar para as lentes de fotógrafos que ficam em pontos estratégicos da Lagoa e, após a sessão diária, vendem as fotos online para quem quer não apenas arrasar na pista, mas contar para todo mundo que arrasou na pista. Nada mais contemporâneo que selfie-corrida-vida-leve-bem-estar-bem. Cada ano que passa, com celulares mais potentes e diante de desvios mais frequentes. Desvios?
DO PROGRESSO QUE SUFOCA À NATUREZA QUE RESPIRA
O asfalto tentava dominar a margem, mas a natureza tem a teimosia, agradecemos, de sempre querer voltar a ser o que era. Em vez da briga entre natureza e progresso, a ideia é naturalizar o espaço, integrando elementos da natureza de forma orgânica e funcional no ambiente construído da cidade. Uma cidade esponja ganha vida com infraestrutura verde para absorver, armazenar, limpar e reutilizar a água da chuva, imitando o ciclo natural da água. A inovação da vez é o mangue, o retorno do manguezal – o que há de mais tecnológico e “pra frente” em 2026 é, justamente, o resgate do que existia antes de o homem chegar.
Para entender essa moça Lagoa que hoje está cada dia mais limpa e cristalina, é preciso lembrar de quando ela ainda era Sacopenapã. No século XVI, as águas eram cercadas por mata fechada e habitadas pelos índios Tamoios, até que o período colonial a transformou no dote de casamento de Petronilha Fagundes com o oficial Rodrigo de Freitas. Ali, o cheiro era de cana-de-açúcar, cenário bucólico, pintado por viajantes estrangeiros como um paraíso intocado.
Mas a modernidade do século XX foi cruel. A moça foi espremida por sucessivos aterros, perdendo quase metade do seu espelho d’água para prédios de luxo e asfalto. O resultado dessa supermodernização desenfreada foi uma enxurrada de esgoto dos vizinhos, transformando o cartão-postal em uma latrina. Durante anos, o que se via eram toneladas de peixes mortos e o receio de tocar na água. Era uma modernidade que, em vez de passar a gente “pra trás”, nos deixava doentes.
Há quase 40 anos, no entanto, um biólogo começou um trabalho de formiguinha. Mário Moscatelli, silenciosamente, começou a plantar mudas de três espécies de mangues: vermelho, branco e preto. O trabalho de Mário com poucos aliados na época deu frutos. As mudas cresceram e algumas viraram árvores de até oito metros. Empresas e o poder público compraram a ideia e o cenário atual saiu da esperança para realidade. Placas ao longo da orla informam aos visitantes da Lagoa sobre áreas naturalizadas, apresentando o projeto e as espécies de fauna e flora existentes, além de sua importância para o ecossistema. As placas são uma forma de convidar a todos para se envolverem na causa.
E plot twist possível aconteceu. Graças ao cinturão de proteção e às 13 estações elevatórias da Águas do Rio, cinco milhões de litros de esgoto deixaram de cair aqui diariamente. A água, enfim, clareou. E com a transparência, voltaram os “moradores” que não eram vistos desde os anos 80. Segundo reportagem no G1, o biólogo Ricardo Gomes, que monitora o fundo da laguna, já registrou cenas dignas de documentário, como o minúsculo peixe Microgobius meeki. Os pescadores da Colônia Z-13, que resistem há mais de um século com seus barquinhos de madeira na beira da areia, voltaram a encontrar robalos e camarões onde antes só havia lodo. Para eles, o bucólico nunca saiu de moda; ele apenas estava sufocado.
O MERGULHO COMO HORIZONTE
Para quem pratica esporte na água, a Lagoa ainda não é liberada para banho, mas o contato secundário é permitido. E, segundo frequentadores diários, as doenças de pele não existem mais. O sonho de nadar na Lagoa, como faziam os cariocas de cem anos atrás, nunca esteve tão perto. O Cristo Redentor abençoa a modernidade, essa sim, que deixa os conservadores para trás, que embeleza a orla da Lagoa em vários tons de verde, com água mais clara e pássaros de espécies variadas sobrevoando o céu azul.
“Essa moça tá decidida a se supermodernizar. Ela só samba escondida, que é pra ninguém reparar”. Cada dia mais esplendorosa, a Lagoa tem uma platéia invejável: estruturas rochosas e turísticas da cidade a celebram, dando ainda mais beleza ao quadro que vem sendo pintado. Mas nem só de natureza vive a Lagoa. Tem samba, nada escondido, tem rock, reggae, forró. Tem pedalinhos bem coloridos e, ano passado, após um longo intervalo, voltou a ter árvore de Natal. Na Lagoa, nada é estático, um quadro, mas, sim, um organismo vivo, com bichos, humanos e árvores convivendo, se movimentando, pra trás e pra frente, não deixando ninguém para trás.










