Marcelo Macedo Soares
Reconhecida oficialmente como Capital Estadual do Kitesurf pela Lei Estadual nº 10.567, de 7 de novembro de 2024, Araruama começa a transformar uma vocação natural em uma estratégia de turismo esportivo. Com ventos constantes durante boa parte do ano, águas rasas e uma extensa área navegável, a Lagoa de Araruama vem atraindo praticantes de diferentes regiões do país, fortalecendo campeonatos na Praia da Pontinha do Outeiro, movimentando hotéis, pousadas, restaurantes e serviços e criando oportunidades para a formação de novos atletas. Mais do que um esporte movido pelo vento, o kitesurf começa a se tornar uma atividade capaz de ajudar a redefinir a relação de Araruama com sua principal paisagem natural.
O VENTO QUE MUDOU O DESTINO
Há lugares que precisam criar uma vocação turística. Araruama, nesse caso, parece ter encontrado uma já pronta sobre as águas da sua laguna. O kitesurf vem ganhando espaço como um dos principais atrativos associados à lagoa, aproveitando uma combinação que interessa tanto aos atletas experientes quanto a quem pretende dar os primeiros passos no esporte: ventos constantes em boa parte da temporada, águas rasas e espaço para navegação.
A vocação não é nova. Competições nacionais já foram realizadas no município e, nos últimos anos, a Praia da Pontinha do Outeiro, no bairro Areal, passou a ocupar posição de destaque no calendário esportivo. Em 2025, o Desafio Brasileiro de Kitesurf levou 120 atletas de diferentes regiões do país para Araruama, em três dias de competição nas modalidades Kiteboard TT Race e Big Air. Organizado pela Confederação Brasileira de Vela, o evento teve premiação total de R$ 30 mil.
O crescimento ajuda a dar conteúdo concreto ao título recebido pela cidade em 2024. A proposta que começou no Legislativo estadual como reconhecimento da vocação esportiva de Araruama tornou-se, progressivamente, uma marca turística. Para Frank França, instrutor profissional de kitesurf há 15 anos, certificado pela International Kiteboarding Organization (IKO) e proprietário da Escola de Kitesurf – Wing Foil, o reconhecimento já produziu um efeito importante: ampliou a atenção de praticantes de outros estados.
“Ser a capital estadual do kitesurf faz com que as pessoas olhem pra região com uma atenção maior”, afirma.
Segundo ele, praticantes de São Paulo, Minas Gerais e Brasília passaram a enxergar a região como um destino interessante tanto para aprender quanto para velejar.
UMA RAIA PRIVILEGIADA
O diferencial de Araruama está menos em uma única característica do que na combinação delas. A Lagoa de Araruama oferece uma grande área de navegação e condições que, segundo praticantes, favorecem diferentes níveis de experiência. Para quem está começando, a pouca profundidade em determinados trechos representa uma vantagem importante. Para quem já domina o esporte, a extensão da raia permite evolução e treinamento.
“A Lagoa de Araruama se destaca pela constância dos ventos na temporada. Outro fator atrativo são as águas rasas e seguras que facilitam o aprendizado para os iniciantes; e pra quem já pratica torna a evolução mais rápida”, explica Frank.
A própria justificativa do projeto que deu origem ao reconhecimento estadual destacou a geografia diferenciada da Pontinha do Outeiro, os ventos fortes e constantes e as águas calmas como fatores que favorecem a prática do esporte. O resultado é uma espécie de arena natural. Não há arquibancadas, teto ou pista construída pelo homem. O cenário é a própria laguna, e o vento funciona como combustível.
É justamente essa característica que transforma o kitesurf em um produto turístico diferente. O visitante não precisa necessariamente ser atleta. Pode acompanhar familiares, assistir às competições, conhecer as escolas, frequentar restaurantes e explorar outros pontos turísticos da cidade.
“Nos dias de vento o kitesurf é foco, mas nos dias sem vento há muito a ser explorado”, resume Frank.
A TEMPORADA EM QUE O VENTO SOPRA A FAVOR
Um dos maiores potenciais do kitesurf para Araruama está na capacidade de ampliar a movimentação turística para além dos períodos tradicionalmente associados ao verão. De acordo com Frank, a temporada de ventos começa normalmente em agosto e se estende até fevereiro, podendo avançar um pouco mais. Abril, maio e junho apresentam menor frequência de ventos, embora ainda seja possível encontrar condições para a prática. Isso cria uma janela particularmente interessante para o turismo esportivo.
Enquanto o turismo de praia tradicional está muito associado aos meses de verão, o kitesurf estabelece outro calendário. O turista passa a escolher a viagem não apenas pela temperatura ou pelas férias escolares, mas também pela previsão e pela temporada dos ventos. É uma mudança importante para cidades que buscam reduzir a dependência da alta temporada.
Um campeonato em setembro, por exemplo, pode levar atletas, acompanhantes, equipes técnicas e visitantes para a cidade em um período que normalmente não teria a mesma pressão turística de janeiro. A experiência recente reforça essa possibilidade. O Desafio Brasileiro de 2025 foi realizado de 19 a 21 de setembro e reuniu atletas de diferentes partes do país na Pontinha do Outeiro.
DO KITE PARA TODA A ECONOMIA
O impacto do kitesurf não termina quando o atleta sai da água. Ele começa, na verdade, antes da chegada à laguna e continua depois que o equipamento é guardado. O visitante precisa de hospedagem, alimentação, transporte, comércio e, em muitos casos, aulas, aluguel ou manutenção de equipamentos. Para quem acompanha um atleta, a cadeia de consumo pode ser ainda maior.
Frank França observa esse movimento diretamente no cotidiano de quem trabalha com o esporte.
“O turismo em torno do kite é forte. Pousadas e restaurantes são os beneficiados direto. Mas de modo geral todo comércio local absorve um pouco desse turismo”, afirma.
Essa característica é especialmente relevante para a economia local porque o dinheiro trazido pelo visitante esportivo não fica concentrado exclusivamente na atividade turística. Ele se distribui por diferentes setores. Hotéis e pousadas recebem os visitantes. Restaurantes e bares atendem atletas e acompanhantes.
Escolas oferecem cursos e treinamentos. Lojas e prestadores de serviço atendem às necessidades relacionadas ao equipamento. Motoristas, pequenos comerciantes e outros segmentos também podem se beneficiar da circulação adicional de pessoas. O desafio, portanto, é transformar esse movimento espontâneo em uma política permanente de turismo esportivo.
PONTINHA DO OUTEIRO ENTRA NO MAPA DAS COMPETIÇÕES
Se a Lagoa de Araruama é a grande arena natural, a Praia da Pontinha do Outeiro vem se consolidando como um dos seus principais palcos. O local já recebeu competições nacionais e, em 2025, foi escolhido para sediar o Desafio Brasileiro, organizado pela Confederação Brasileira de Vela. A edição reuniu 120 competidores e nove regatas, além das disputas de Big Air. Para Frank, a Pontinha oferece uma raia particularmente adequada para campeonatos.
“A Pontinha do Outeiro conta com uma excelente raia para campeonatos de kitesurf. Outros locais na região também contam com grande potencial”, diz.
A realização recorrente de competições é um dos caminhos para transformar a fama local em reconhecimento nacional. Mas existe uma diferença entre receber eventos pontuais e fazer parte de um circuito permanente. Para isso, é necessário calendário, organização, infraestrutura, divulgação, apoio institucional e articulação com as entidades que comandam o esporte.
Na avaliação do instrutor, uma consolidação mais ampla dependerá da parceria com a Associação Brasileira de Kitesurf (ABK), que pode contribuir para a permanência de etapas em cidades que apresentem condições de vento e capacidade de organização.
MAIS QUE RECEBER, FORMAR ATLETAS
Se trazer competidores de fora ajuda a projetar Araruama, formar moradores da própria cidade pode ser o passo seguinte. O município tem uma condição natural privilegiada, mas ainda existe um espaço importante entre essa vocação e a participação da população local. Frank aponta justamente essa lacuna.
“Ainda não há um incentivo por parte da Prefeitura de Araruama para incentivo de jovens na prática do kitesurf. Acredito que um apoio de um projeto social seja o melhor caminho”, avalia.
A observação ganha relevância porque o esporte pode ser utilizado não apenas como ferramenta de formação esportiva, mas também de educação, profissionalização e inclusão. Um jovem que começa como aluno pode, no futuro, tornar-se atleta, instrutor, profissional ligado ao turismo ou empreendedor no setor.
Em maio deste ano, a Prefeitura de Araruama publicou o Decreto nº 52, declarando de utilidade pública uma área destinada à criação de uma Unidade Escolar Náutica. O próprio decreto cita a vocação hídrica do município, o crescimento das atividades náuticas, a formação de crianças e jovens e o incentivo ao turismo esportivo entre as justificativas para o projeto.
A iniciativa pode representar uma oportunidade para que o conceito de “Capital do Kitesurf” ultrapasse a dimensão promocional e se transforme também em política de formação. Para Frank, a participação dos moradores seria justamente uma das principais “Na minha visão, ter mais moradores locais praticando daria uma boa alavancada nessa consolidação. Além de projetos para formarmos jovens instrutores.”
UM ESPORTE MOVIDO PELO VENTO
Há ainda uma dimensão ambiental que diferencia o kitesurf de outras atividades náuticas. O esporte utiliza a força do vento como propulsão e não depende de motor para deslocar o praticante. Isso significa ausência de emissões diretas de combustível durante a navegação e menor interferência sonora do que atividades náuticas motorizadas. Mas existe algo ainda mais importante: a relação do praticante com o ambiente.
Quem depende do vento, da qualidade da água e das condições da laguna passa a observar com atenção aquilo que mantém o esporte possível. Frank acredita que essa relação produz uma consciência ambiental diferenciada entre os praticantes.
“A comunidade de um modo geral já tem uma consciência ambiental diferente”, afirma.
O título estadual colocou Araruama no mapa. Os eventos deram visibilidade. Os ventos oferecem a matéria-prima. E a laguna entrega o cenário. O próximo passo é transformar essas vantagens em uma estratégia duradoura.
Para isso, os próprios praticantes apontam algumas prioridades: ampliar a formação de atletas locais, criar projetos voltados para crianças e jovens, incentivar a formação de instrutores, fortalecer as escolas de kitesurf, manter competições relevantes e ampliar a divulgação da cidade como destino de turismo esportivo.
UMA CAPITAL QUE AINDA PODE CRESCER
Também será importante manter a infraestrutura compatível com o crescimento da atividade e estabelecer uma relação permanente entre poder público, escolas, entidades esportivas, empresários e comunidade.
Araruama já possui uma vantagem que nenhum planejamento consegue fabricar: o vento. Agora, o desafio é fazer com que ele movimente não apenas as pipas sobre a Lagoa de Araruama, mas também uma cadeia econômica, esportiva, turística e educacional capaz de beneficiar a cidade durante todo o ano.
O título estadual colocou Araruama no mapa. Os eventos deram visibilidade. Os ventos oferecem a matéria-prima. E a laguna entrega o cenário. O próximo passo é transformar essas vantagens em uma estratégia duradoura.
Para isso, os próprios praticantes apontam algumas prioridades: ampliar a formação de atletas locais, criar projetos voltados para crianças e jovens, incentivar a formação de instrutores, fortalecer as escolas de kitesurf, manter competições relevantes e ampliar a divulgação da cidade como destino de turismo esportivo.
Também será importante manter a infraestrutura compatível com o crescimento da atividade e estabelecer uma relação permanente entre poder público, escolas, entidades esportivas, empresários e comunidade.
Araruama já possui uma vantagem que nenhum planejamento consegue fabricar: o vento. Agora, o desafio é fazer com que ele movimente não apenas as pipas sobre a Lagoa de Araruama, mas também uma cadeia econômica, esportiva, turística e educacional capaz de beneficiar a cidade durante todo o ano.








