Texto: Marcelo Macedo Soares
Fotos: Drone Adventures
Todos os anos, quando o inverno começa a se instalar no litoral fluminense, um espetáculo silencioso e grandioso passa a fazer parte da paisagem da Região dos Lagos. Entre junho e novembro, as águas da costa brasileira recebem a visita das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), mamíferos marinhos que fazem uma das mais longas migrações do planeta, percorrendo milhares de quilômetros entre a Antártica e as áreas tropicais de reprodução no Atlântico Sul.
Na Região dos Lagos, especialmente em Arraial do Cabo, julho representa o auge dessa temporada. É quando aumentam significativamente as chances de avistar os gigantes dos oceanos emergindo próximos à costa, exibindo comportamentos que encantam turistas, fotógrafos, pesquisadores e moradores.
Com até 16 metros de comprimento e cerca de 40 toneladas, as jubartes transformam o inverno fluminense em uma época única para o turismo de natureza e para a observação da vida marinha.
Uma viagem de milhares de quilômetros
As baleias-jubarte passam boa parte do ano alimentando-se nas águas frias e ricas em nutrientes da Antártica. Com a chegada do inverno no hemisfério sul, iniciam sua migração em direção às águas mais quentes da costa brasileira, onde se reproduzem e dão à luz seus filhotes.
Segundo o biólogo marinho Marcelo Tardelli Rodrigues, que há anos acompanha o monitoramento desses animais na região, o período mais comum da migração ocorre entre junho e agosto, embora os registros possam se estender até o final de setembro.
“Em abril já registramos baleias-jubarte superadiantadas e em maio as baleias adiantadas. O período de migração mais comum utilizado pela espécie é de junho a agosto, mas ainda podemos observar animais na região até o final de setembro. O pico ocorre em julho”, explica.
Embora Arraial do Cabo seja principalmente uma rota migratória, os animais não estão necessariamente apenas de passagem.
“A costa de Arraial do Cabo é utilizada principalmente como área de passagem, mas a espécie também pode utilizar a região como área de reprodução e cria de filhotes e, ocasionalmente, como área de alimentação”, afirma o pesquisador.

Porque Arraial do Cabo se tornou referência nacional
Se existe um lugar privilegiado para observar baleias-jubarte no estado do Rio de Janeiro, esse lugar é Arraial do Cabo.
Para Marcelo Tardelli, as características geográficas da cidade criam condições únicas para a observação desses gigantes.
“Arraial do Cabo é, para mim, o melhor lugar do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil para observar e estudar baleias-jubarte em rota migratória”, afirma.
O diferencial está na chamada projeção oceânica da península cabista.
“A principal característica é sua projeção em direção ao oceano, uma das mais avançadas de todo o litoral brasileiro. Isso facilita a observação e o acompanhamento das espécies migratórias que se deslocam próximas à costa”, explica.
Essa geografia faz com que as baleias passem relativamente perto do continente, permitindo observações privilegiadas sem a necessidade de grandes deslocamentos marítimos.
Segundo o biólogo, essa é uma vantagem importante quando comparada a outros destinos famosos de observação de baleias no Brasil.
“Arraial do Cabo é o lugar mais acessível do Brasil para observar baleias-jubarte a partir do continente. Em locais como o Arquipélago dos Abrolhos, na Bahia, é necessário navegar por horas. Aqui conseguimos observar baleias diretamente de praias e morros com muita facilidade.”
Um retorno histórico aos oceanos brasileiros
O aumento dos avistamentos nos últimos anos não é apenas uma impressão.
De acordo com Marcelo Tardelli, o crescimento da população de baleias-jubarte no Atlântico Sul Ocidental representa uma das maiores histórias de sucesso da conservação marinha mundial.
“Na década de 1980, a população que vinha para a costa brasileira estava estimada em cerca de 800 animais. Hoje esse número gira entre 30 e 35 mil baleias.”
O crescimento é resultado de décadas de proteção da espécie após a proibição da caça comercial e do trabalho contínuo de pesquisa e conservação realizado por instituições especializadas.
Além do aumento populacional, a popularização da fotografia digital, dos drones e das redes sociais também ampliou significativamente o número de registros realizados por moradores e turistas.

Muito além das jubartes
Embora as baleias-jubarte sejam as estrelas da temporada, elas não estão sozinhas nas águas fluminenses.
Segundo o pesquisador, outras espécies também podem ser observadas ao longo do litoral.
“As espécies mais comuns são a baleia-de-Bryde, a baleia-minke-comum, a baleia-minke-anã e a baleia-franca-austral, que vêm sendo registrada com frequência crescente no litoral fluminense.”
Há ainda registros ocasionais de espécies raras, como a baleia-fin, considerada a segunda maior baleia do planeta.
Onde observar na Região dos Lagos
Além de Arraial do Cabo, outras cidades da Região dos Lagos oferecem boas oportunidades para observação.
Na avaliação do especialista, as melhores chances de avistamento seguem a seguinte ordem: Arraial do Cabo, Búzios, Cabo Frio, Saquarema e Araruama. Entre todos os pontos disponíveis, um se destaca.
“Para mim, o melhor local do Brasil para observar baleias em rota migratória é o Morro do Pontal do Atalaia, em Arraial do Cabo.”
Praias voltadas para o chamado “mar de fora” e pontos elevados também costumam proporcionar excelentes oportunidades de observação sem necessidade de embarcação.
O espetáculo dos saltos
Para quem vê uma baleia-jubarte pela primeira vez, os saltos costumam ser o momento mais emocionante.
“A baleia-jubarte é considerada a mais acrobata de todas as grandes baleias”, destaca Marcelo Tardelli.
Segundo ele, os animais realizam saltos completos ou parciais por diferentes razões.
“Eles podem estar relacionados à comunicação, disputa entre indivíduos, remoção de parasitas, demonstrações de agressividade ou até mesmo estados comportamentais que interpretamos como alegria.”
Outro detalhe marcante são as enormes nadadeiras peitorais, as maiores entre todas as grandes baleias, além da pequena nadadeira dorsal posicionada sobre uma característica corcova que deu origem ao apelido de “baleia-corcunda”.
Já a parte inferior da nadadeira caudal funciona como uma verdadeira impressão digital natural.
“Cada indivíduo possui um padrão único de pigmentação branca na parte ventral da cauda. Nenhuma baleia apresenta exatamente a mesma marcação.”
Turismo responsável e regras de observação
O crescimento do turismo de observação trouxe novas oportunidades econômicas para a região, mas também exige cuidados.
A legislação brasileira estabelece regras rigorosas para proteger os animais e garantir a segurança das pessoas.
Entre elas, está a proibição de aproximação de embarcações a menos de 100 metros dos cetáceos com o motor engrenado. Também é proibido perseguir baleias, interromper suas rotas ou permanecer próximo por períodos excessivos.
A legislação ainda proíbe nadar ou mergulhar a menos de 50 metros dos animais e impede a aproximação de aeronaves a altitudes inferiores a 100 metros sobre o nível do mar.
No caso dos drones, Marcelo Tardelli ressalta a necessidade de manter distância mínima de 100 metros acima da superfície da água.
“Essas regras existem para garantir a segurança tanto dos animais quanto das pessoas.”
Economia aquecida em plena baixa temporada
Tradicionalmente considerada baixa temporada turística, a estação mais fria do ano vem ganhando um novo impulso econômico graças às baleias.
Segundo Marcelo Tardelli, o Turismo Embarcado de Observação de Baleias já se consolidou como uma importante fonte de renda para comunidades locais.
“Hoje pescadores que atuam no Turismo de Base Comunitária realizam passeios de observação de baleias como forma de obter renda extra durante o inverno.”
Em Arraial do Cabo, a atividade passou a integrar oficialmente o calendário turístico do município e vem crescendo ano após ano.
“Na verdade, o turismo de observação de baleias já é um dos principais atrativos do inverno na região.”
O fenômeno também tem atraído visitantes de diversas partes do Brasil e do exterior, incluindo turistas da Argentina, Chile, Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Bélgica, Inglaterra e Japão.
Um encontro capaz de transformar
Além do impacto econômico e científico, existe uma dimensão emocional difícil de medir para quem testemunha uma baleia-jubarte em seu ambiente natural.
Para Marcelo Tardelli, essa é uma experiência capaz de mudar a forma como enxergamos os oceanos.
“Sentir que você está ao lado de um animal lindo, intrigante, fascinante, poderoso e, ao mesmo tempo, extremamente gentil e curioso é algo único.”
E conclui:
“Olhar dentro do olho de uma baleia-jubarte é perceber que esses animais só querem ter a chance de viver neste planeta tanto quanto nós.”
Em uma época em que a busca por experiências autênticas e contato com a natureza cresce em todo o mundo, as gigantes do inverno seguem transformando a Região dos Lagos em um dos mais extraordinários palcos naturais do Brasil — um lugar onde ciência, conservação, turismo e emoção navegam lado a lado.










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