COMPORTAMENTO: BANDEIRA ROSA

Helen Cardoso, do Táxi Delas

Luisa Prochnik

Táxi solicitado. Exigência: mulher ao volante. Uma faixa rosa sobre a porta amarela indica a chegada do carro. A condutora, vestindo a mesma cor, inicia a viagem. Nenhuma palavra precisa ser dita no trajeto para que uma cumplicidade silenciosa se estabeleça de imediato entre motorista e passageira. Ambas compartilham os desafios cotidianos de circular por uma grande metrópole. Dispensam explicações sobre o machismo estrutural, os olhares que diminuem ou a insegurança velada diante de gestos masculinos.

Esse laço invisível de acolhimento e proteção ganha agora o apoio da lei no Rio de Janeiro. A mudança vem com a Política Estadual de Prevenção e Enfrentamento ao Abuso Contra as Mulheres no Transporte Coletivo, e ganha força com projetos para padronizar a faixa rosa nos táxis, além de criar pontos de embarque estritamente femininos. É nesse cenário de busca por mobilidade segura, a bordo do recém-criado Táxi Delas, que esta reportagem acontece ao lado da motorista Helen Cardoso.

Para Helen, estar no comando é sinônimo de autonomia. Mãe de três filhos de 8, 12 e 17 anos, e estudante de fonoaudiologia, ela trabalhou como professora infantil por duas décadas antes de encontrar no táxi a flexibilidade ideal para conciliar a rotina. A engrenagem doméstica funciona em parceria com o marido, também taxista: ela assume as corridas de dia, e ele roda à noite.

O Táxi Delas não é uma iniciativa isolada. Gigantes do setor criam espaços dedicados a condutoras, e novos negócios surgem focados na segurança de quem dirige e de quem vai no carona

A inauguração oficial do Táxi Delas ocorreu em maio deste ano na Tijuca, ponto de partida de um plano de expansão que já reúne cerca de 30 motoristas profissionais.

– Comecei a rodar em fevereiro de 2026, quando conheci a Carla, idealizadora do projeto. Conversamos sobre a proposta e me apaixonei. Tinha tudo a ver com o que eu buscava. Foi uma luz para as taxistas -, relembra Helen, referindo-se à fundadora, Carla Santos. – A Carla pensou nisso há três anos para atender às famílias. Nosso foco são as motoristas mulheres. Atendemos a todos os públicos, mas a maior demanda é feminina.

O Táxi Delas não é uma iniciativa isolada. Gigantes do setor criam espaços dedicados a condutoras, e novos negócios surgem focados na segurança de quem dirige e de quem vai no carona. Em comunicado recente, a Uber relatou a expansão do recurso Uber Mulher para 13 capitais brasileiras, incluindo o Rio. O recurso permite que usuárias viajem prioritariamente com motoristas do mesmo sexo. Segundo a empresa, a base de parceiras cresceu 160% nos últimos anos, embora elas ainda representem 8% do total de condutores no país. Outras plataformas, como a Lady Driver, seguem em expansão. Há também iniciativas mais antigas, como o ponto de Laranjeiras, onde as motoristas ficaram conhecidas como “Rosinhas” — apelido que inspirou até a cor do sinal luminoso no teto dos veículos.

– O rosa funciona como uma referência visual imediata. Ajuda a chamar a atenção na rua de forma positiva. As pessoas identificam o carro de longe. Nossa camisa é rosa e o símbolo no carro também. É a nossa comunicação com o público -, explica Helen enquanto guia o veículo.

O trajeto avança em direção ao Centro e o táxi se aproxima do Túnel Santa Bárbara. Helen recorda sua estreia na profissão. Apesar do apoio e do treinamento do marido, o início nas ruas cariocas foi hostil. Hoje, integrada ao ponto exclusivo, a realidade mudou. O grupo mantém uma rede de proteção digital ativa. Por um aplicativo de mensagens, as taxistas compartilham a localização em tempo real. Se alguma motorista entra em uma região desconhecida ou relata desconforto, as companheiras fazem um acompanhamento remoto para oferecer suporte ou acionar a segurança.

Se alguma motorista entra em uma região desconhecida ou relata desconforto, as companheiras fazem um acompanhamento remoto para oferecer suporte ou acionar a segurança

Essa rede de confiança atrai um público que vai além das passageiras adultas. Mães contratam os serviços para o transporte solitário de crianças e adolescentes, e os idosos encontram ali um porto seguro.

Próximo ao destino, o carro de Helen faz uma parada planejada para buscar a filha da passageira. A jovem entra no carro aos prantos, chateada com um conflito na escola. Além da viagem segura, Helen oferece empatia e colo. O táxi segue viagem até a parada final: três mulheres unidas, no trânsito, por um destino comum de cumplicidade.

GUIA DE SERVIÇOS
Táxi Delas
• Onde fica: Rua Uruguai, nº 393, Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro.
Funcionamento: Atendimento físico 24 horas. Corridas no período noturno (entre 22h e 6h30) devem ser agendadas previamente.

• Táxi das Meninas (Ponto das Penélopes)
Onde fica: Ponto fixo na Rua das Laranjeiras, Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro.
Funcionamento: Atendimento diário no local.

• Ella Drive (antiga Lady Driver)
Como usar: Aplicativo de mobilidade exclusivo para mulheres (passageiras e motoristas).
Onde atua: Cidades do Rio de Janeiro e Niterói, além de mais de 135 municípios do país. Conta com os serviços adicionais Lady Kiddos (crianças e adolescentes) e Lady Care (idosos).

• Uber (Recurso Uber Mulher)
Como usar: Funcionalidade integrada ao aplicativo tradicional da Uber. Também disponível para contas Teens.