COMPORTAMENTO: À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS

De feiras que vendem artigos que custam milhares de reais a campeonatos de botão e uniformes de clubes históricos que não existem mais, a paixão extracampo dos cariocas nunca esteve tão em alta

Jan Theophilo

Nem o sol escaldante, o calor senegalês ou as centenas de pessoas se esbarrando em um trecho do estacionamento do Shopping Uptown na Barra, pareciam tirar o ânimo do professor de filosofia Jerônimo da Silva naquele sábado. Com uma camisa do Flamengo dos tempos do patrocínio da Umbro, com o número 11 e o nome Romário, ele procurava alguém disposto a uma troca. “Quero achar um modelo do Flamengo daquele furadinho, usado nos anos 1970, dou até um dinheiro a mais para fechar o negócio”, explicava. Aquilo que desde tempos imemoriais se chamava escambo, aqui é chamado de  “Troca de Camisas”, uma das mais badaladas atrações da Geral, a feira de colecionadores de artigos raros do futebol carioca, que caminha para a quinta edição. Uma turma que ama tanto futebol a ponto de estender suas paixões e obsessões para além das quatro linhas.

Nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro, aproximadamente 25 mil pessoas percorreram os mais de 50 stands que vendiam de tudo um muito. A Geral é muito mais do que um brechó esportivo. Nas barraquinhas encontram-se álbuns de figurinhas antigos, ingressos, troféus, livros… Adultos e crianças disputavam mesas do bom e velho futebol de botão. Uma cruz de malta vascaína entalhada em madeira saía por R$ 500. Já uma camisa oficial do Flamengo, usada e assinada por Zico, custava a mixaria de R$ 10 mil.

“Para quem era menino nos tempos analógicos, ou pré-internet, nossa vida girava em torno do futebol”, conta Luís Augusto de Lima, o Quedinho, criador e presidente da Geral. “Muitas pessoas têm acervos valiosíssimos. Camisas antigas lindas, da época em que não eram infestadas de patrocínios. A feira surgiu da ideia de fazer essas pessoas se encontrarem e retomarem brincadeiras como o futebol de botão, jogo de bafo, troca de figurinhas ou camisas, exatamente como fazíamos quando crianças”, completa. Não à toa, “Troca de Camisas” faz tanto sucesso. Aquele manto sagrado com o qual você implicou ou não serve mais por algum motivo, é possível trocar por outro de comum acordo com outro participante. “Na próxima edição, em maio, a novidade será um grande campeonato de futebol de botão, que terá 20 mesas com jogos simultâneos”, promete Quedinho: “As pessoas acham que nesses tempos de videogame o botão acabou, mas a gente vê aqui na Geral que tem muita garotada que ainda joga, nem que seja treinando em casa com o avô”.

Durante a última edição da Geral, o engenheiro André Suppa parecia um menino que tinha acabado de ganhar um Estrelão (para os mais jovens, um campo de futebol de botão de madeira muito popular nos anos 70 e 80).  “Já comprei o álbum de figurinhas da Pingue Pongue da Copa de 1982 e uma coleção de Futebol Cards do time do Flamengo de 1979 para fazer um quadro para a sala lá de casa”, contava animado. Futebol Cards eram cartões do tamanho de uma carta de baralho que acompanham os famosos chicletes no fim da década de 1970. “Aqui no Brasil a gente trabalha muito mal o potencial dos clubes. Uma vez visitei a Bombonera, em Buenos Aires, e na saída tinha uma lojinha com tudo o que você imaginar do Boca Juniores: até vinho, cerveja e cuecas”, diz.

Tanta saudade acumulada faz com que um item em especial se destaque entre todos os ofertados na Geral: as camisas históricas. “Elas são fundamentais para lembrar as grandes histórias aos mais jovens. Hoje o YouTube tem mais vídeos do Cafu do que do Garrincha ou do Nilton Santos. Pouca gente, por exemplo, sabe que o Zico não começou no Flamengo, mas no infantil do Juventude de Quintino”, diz Quedinho. E no meio desse furor consumista ainda teve gente que resolveu levantar o sarrafo e apostar ainda mais alto na nostalgia, relançando camisas de clubes do passado que nem existem mais.

Um desses fabricantes é o professor de biologia Kleber Monteiro Fins. Pesquisador do futebol carioca, durante a pandemia ele resolveu escrever sobre um dos times mais peculiares da Guanabara, o Andarahy Atlético Clube, que ganhou novas luzes em uma canção “No Tempo de Don-Don”, do vascaíno Nei Lopes, e popularizada por Zeca Pagodinho: “Ai no tempo!/ No tempo que Don-don jogava no Andaraí/Nossa vida era mais simples de viver/Não tinha tanto miserê, nem tinha tanto ti ti ti”. O problema era a falta de grana para se dedicar ao livro. Foi quando ele topou a sugestão de um amigo de fabricar camisas do Andaraí para bancar a edição. A ideia deu certo, e Kleber não parou mais.

“Um dia, outro amigo me procurou e perguntou se eu não poderia fazer uma camisa do Confiança, um time do bairro de Aldeia Campista, que se desestruturou, mas que tem a sua arquibancada original, toda de madeira, em estilo inglês, preservada até hoje num clube administrado pelo Salgueiro, que fica ao lado da quadra”. Para Kleber é com pequenos causos assim que se vai montando o quebra-cabeças de uma história fabulosa, que corre risco de se perder, sobre o futebol da Guanabara.  Hoje ele já tem uma linha de cerca de 25 camisas de times históricos que acabaram, se fundiram com outros, ou simplesmente deixaram de lado o rude esporte bretão. Mas, dentre elas, nenhuma tem feito tanto sucesso quanto a do Haddock Lobo FC, o primeiro e único time a usar marrom no uniforme oficial – o que, aliás, está plenamente de acordo com os atuais ditames da moda de Paris que escolheu a tonalidade como a cor de 2026 para a moda masculina.

“As pessoas quando veem a camisa ficam enlouquecidas. Faço muitas feiras. Umas duas semanas atrás um americano quis levar todas. Foi mais fácil vender do que fazê-lo falar Haddock Lobo direito”, brinca. Ao longo de seus escassos três anos de história, o clube da rua da Tijuca nunca fez grande sucesso em campo, até ser absorvido pelo clube do bairro, no caso, o América FC. Mas ainda assim deixou legado como a revelação do goleiro Marcos Carneiro de Mendonça, que fez história no Fluminense e na Seleção Brasileira.

“Outra que sai muito é a do Sport Club Mangueira, chamado de ‘rubro-negro tijucano’, um time formado por operários da fábrica Chapéus Mangueira que sofreu em 1909 uma derrota monumental por 24 a 0 para o Botafogo, com nove gols de Gilbert. A maior do futebol carioca”, conta. O Mangueira também passou a história por ter sido o primeiro time a enfrentar o Flamengo em um campeonato oficial. E levou outra sapatada, dessa vez de 15 a 2. Desistiu do futebol em 1927 e seus remanescentes foram, literalmente, tocar a vida na escola de samba de mesmo nome. “Meu pai me contava sobre time, que existia perto da Saens Peña e as goleadas famosas que sofreu. Como tijucano raiz, sempre fiquei curiosíssimo por essa história e acabei fazendo outro livro, dessa vez sobre o Mangueira”.

Mas naturalmente nem só de times da Zona Norte são feitas as araras do Kleber. Ele tem camisas também curiosas como a do Riachuelo, “o time com escudo mais bonito do Rio”, diz; a do Cattete FC, cujo manto número 2 é todo quadriculado como a da Seleção da Croácia, mas em azul e branco; há também o Rio Football Club, primeiro rival do Fluminense, com fardamento todo branco com duas listras horizontais roxas e uma azul; ou o Sport Club Brasil, time da Urca que metia a moral de ter o estádio mais bonito do mundo. E que existiu mesmo, na Praia Vermelha, com o Pão de Açúcar ao fundo. Ele integrou as primeiras décadas do futebol carioca e chegou a contar com o craque Leônidas da Silva. Fechou as portas em 1935, relegado aos registros amarelados da memória boleira.

“É um trabalho mais difícil do que parece”, explica Kleber: “primeiro porque as fotos eram em preto e branco, as reportagens raramente entram no detalhe de como eram os uniformes, porque as pessoas já sabiam. Aí depois tem o problema de achar o escudo. No começo do futebol do Rio, os clubes precisavam fazer um registro na delegacia de polícia do bairro. Esses registros foram reunidos, mas mofaram e não tem como acessar. Eu tenho sorte porque tenho amigos historiadores que me ajudam muito nas pesquisas”, diz.

Na linha de montagem de Kleber, duas novas camisas estão sendo preparadas para comercialização. E prometem causar sensação no mercado. “Uma é a do Clube Germânia, um time de segunda divisão que em 1912 já contava com pretos no elenco, o que desmistifica aquela lenda de que o Vasco foi o primeiro time a enfrentar o preconceito racial”, diz ele. O Clube Germânia, para quem não lembra, foi aquele cuja sede na Praia do Flamengo invadida pela turma da UNE, em protesto contra os alemães durante a Segunda Guerra Mundial, que fez dele seu QG até a Ditadura Militar incendiá-lo nos anos 1960.

O outro desenho de camisa promete ser mais papo-cabeça. Kleber pretende lançar o uniforme do time do Colégio Latino-Americano, instituição de ensino fundada em 1905 no Leme pelo poeta, dramaturgo e notável anarquista brasileiro José Oiticica, que vez ou outra completou o time ele mesmo. “Já tenho quase tudo. Cores, desenhos, falta só localizar os escudos desses dois times”, diz ele. Caso alguém possa ajudar o Kleber, cartas para a redação.

De feiras que vendem artigos que custam milhares de reais a campeonatos de botão e uniformes de clubes históricos que não existem mais, a paixão extracampo dos cariocas nunca esteve tão em alta

TIMES HISTÓRICOS QUE NÃO EXISTEM MAIS

O futebol do Rio de Janeiro tem paixões tremendas, e se orgulha dos amores eternos por times como Flamengo, Botafogo, Fluminense ou Vasco, mas a Guanabara também teve outros casos românticos, infelizmente fugazes, e talvez por isso, extintos. Entre ruas que hoje abrigam shoppings, antes havia campos de times que acreditavam ser eternos. E descobriram que a eternidade, no futebol carioca, costuma durar menos que uma chuva de verão.

Villa Isabel Football Club

Esse time de proletários era antes de tudo ousado. Fundado em 2 de maio de 1912 na Vila Isabel, Zona Norte do Rio, o clube, conhecido pelo nome poético “Club do Boulevard”, mandava seus jogos na Praça 7 de Março (hoje Praça Barão de Drummond) e, durante sua fase na elite carioca, utilizava o Jardim Zoológico de Vila Isabel.

Em 1914, ele protagonizou um momento histórico: realizou o primeiro jogo noturno da América Latina, um feito frequentemente mais lembrado do que qualquer taça que tenham levantado. A iluminação contou com 12 lâmpadas e…. três mil velas, o que certamente deve ter atraído toda a comunidade wicca do Rio na época.

O Villa venceu por 4 a 0 um selecionado de jogadores de Campos dos Goytacazes que dificilmente devem ter esquecido aquela noite. Nos anos seguintes o futebol teve alguns lampejos, mas uma rota constante de decadência até encerrar as atividades na década de 1940.

Riachuelo Futebol Clube

É o chamado campeão frustrado do Rio de Janeiro. O time foi o primeiro campeão carioca da Segunda Divisão em 1906, mas não subiu. Uma bizarrice do regulamento da época previa que a ascensão à elite do futebol carioca deveria ser decidida após um mata-mata entre o campeão da segundona e o último colocado da primeira divisão, o Foootball and Athletic Club.

O Riachuelo perdeu, mas ainda tentou umas caneladas até 1911 quando decidiu desmanchar o plantel e praticamente todos os jogadores migraram para o São Cristóvão.

Football and Athletic Club

O time de nome mais apalermado da história do futebol carioca foi fundado em 1904 na Zona Norte, participou da fundação da Liga Metropolitana de Football, disputou o Carioca de 1906 – quando ficou na pior colocação como tratado acima.

Os dirigentes então decidiram que a solução para todos os males era abrasileirar o nome do clube em busca de maior ressonância nas arquibancadas. Mas a recém rebatizada Associação Athletica Internacional não teve melhores resultados e sumiu do mapa em 1912.

Syrio e Libanez Athletic Club

Fundado em 1921, foi extinto em 1930, quando disputava a elite do futebol carioca, e punido por um motivo peculiar. Na cisão do futebol carioca no fim dos anos 1920 surgiram duas ligas com nome de substância psicodélica: a LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres) e a Amet (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos).

O Syrio não quis abafar ninguém, só queria mostrar que jogava bola também, mas acabou sendo punido pelas duas ligas e pelo mesmo motivo: não tinha um campo próprio, já que usava o terreno do Mangueira, na Rua Desembargador Izidro, na Tijuca – é aquela burocracia impiedosa impedindo a lenda de prosperar.

Andarahy Athletic Club

Fundado em 9 de novembro de 1909, o alviverde disputou o Campeonato Carioca com alguma dignidade. Mas sua melhor passagem pelo futebol carioca foi narrada em uma memorável crônica do jornalista Mario Filho.

Era dezembro de 1937, o Vasco já havia conquistado o campeonato e faria um jogo contra o Andarahy  no campo do Fluminense nas Laranjeiras só para cumprir tabela. Chovia torrencialmente sobre a Guanabara, o Andarahy entrou em campo para aquecer, mas nada do Vasco. Logo veio a notícia: o ônibus com o time sofrera um acidente e iria atrasar.

O juiz, ensopado, lembrou ao capitão do Andarahy  que já podia decretar W.O. e assim todos poderiam ir pra casa tomar sopinha. Mas o time do Andarahy, orgulhoso, decidiu esperar.  O Vasco chegou e chegou pesado. Sapecou 12 a 0 no rival molhado e desnorteado.

Assim que acabou o jogo, Arubinha, um reserva do Andarahy, espectador do desastre e treinado na mandinga, não se fez de rogado e transformou sua fúria numa maldição contra o Vasco da Gama: 12 gols, 12 anos sem glórias no futebol. Dizem que, na surdina, ele foi a São Januário e enterrou um sapo numa das canchas vascaínas. Os anos foram passando e nada do Vasco ganhar novos títulos. Diz a lenda que chegaram a revirar o campo atrás da ossada do sapo, sem sucesso. O Vasco levou nove anos para se livrar de inhaca, e o Andarahy sobreviveu até 1973.