A HISTÓRIA VIRANDO RUÍNA

Da casa-grande restam vestígios

Jan Theophilo

O começo dessa história todo carioca ou simpatizante conhece, senão deveria conhecer. Em meados do século XIX, a Guanabara ficou sem água potável porque, décadas antes, fazendeiros de café e cana tinham literalmente raspado a vegetação que protegia os mananciais da Serra da Carioca e do maciço da Tijuca. E foi essa crise, e não alguma visão ecológica futurista, que levou Dom Pedro II a assinar, em 1861, o decreto que criou o primeiro reflorestamento em larga escala do país, uma obra que, a partir de 1862, seria executada por um major de polícia chamado Manuel Gomes Archer e por um grupo de pessoas escravizadas cujos nomes a história preferiu esquecer por mais de um século, até que todos foram incluídos na lista dos Heróis e Heroínas do Rio de Janeiro. Mas teve um pedaço dessa aventura que caiu da mudança do reconhecimento histórico.

Durante o período em que comandou o reflorestamento, o major Archer se estabeleceu na casa grande do antigo Sítio Midosi, “a propriedade pertencera ao cafeicultor francês Guilherme Midosi e, até então, tinha sido uma das que mais tempo produziu café na região. Ele ganhava duas vezes. Primeiro vendendo a madeira do desmatamento, e depois o café que cultivava”, conta o professor e pesquisador da história do Rio Dilson Gomes. 

Ao longo de 13 anos de trabalho, entre 1862 e 1874, foram plantados cerca de 100 mil mudas na área hoje ocupada pela Floresta da Tijuca, a maioria de espécies nativas da Mata Atlântica. Para dar conta da demanda, o major Archer organizou, dentro do próprio Sítio Midosi, um horto florestal murado, onde eram cultivadas as plantas antes de seguirem para o replantio nas encostas da Tijuca. Foi ali, cercado por paredes de pedra, que nasceu boa parte da vegetação que hoje forma o dossel da floresta, num arranjo que funcionava como um pequeno viveiro estatal a céu aberto.

O projeto, como se sabe, foi um sucesso. O tempo passou e a floresta tratou de se expandir pelo antigo QG do Major Archer. Da casa-grande restam vestígios, o horto ainda está lá, coberto de terra e com seus indefectíveis muros de pedra com óleo de baleia. E em 1944, o governo do Distrito Federal reformou a antiga senzala, onde Maria, Eleutério, Constantino, Manoel, Mateus, Leopoldo, Sabino, Macário, Clemente, Antônio e Francisco, os 11 escravizados que trabalharam com o oficial repousavam. Eles preparavam os caminhos, abriam os locais de plantio e cultivavam mudas de espécies nativas de maneira sustentável, demonstrando um profundo entendimento do ecossistema há mais de 160 anos. Em 25 de março de 2025, a ALERJ aprovou o Projeto de Lei 605/23, que incluiu o nome dessas 11 pessoas no livro dos Heróis e Heroínas do Estado do Rio, um reconhecimento que buscou evitar o apagamento do grupo formado por uma mulher e 10 homens negros.

“Mas a estrutura desta antiga senzala está colapsando. O imóvel abrigou várias atividades, inclusive o Restaurante A Floresta, e está sem uso desde a pandemia. Fizemos o escoramento e uma sobrecobertura e contratamos o projeto de restauro, que deve ficar pronto no início do ano que vem”, diz a chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar. “É muito importante recuperar esse casarão. Mas há etapas delicadas, porque é uma restauração, cujo processo está sendo acompanhado de perto pelo Iphan”, completa.

No dia da visita ao local da reportagem de Rio Já, não havia um único trabalhador ou vigia no local. Uma grande cerca de metal atrapalha bastante a vista dos destroços da casa de quem passa pela estrada. Não há uma única placa explicativa contando a história e a importância daquele local como berçário daquela que é conhecida como a maior floresta urbana do mundo (#exagero). O maior esforço para o não apagamento total deste marco da cidade é a trilha das Ruínas do Archer, que faz parte do Circuito das Grutas e Cachoeiras no Parque Nacional da Tijuca, e passa pelas ruínas da antiga sede do Sítio Midosi, que se resumem, atualmente, a extensas muralhas em pedra, de alturas variáveis, além de patamares e degraus que sugerem o formato original de uma casa de fazenda – sem contar com um resistente pezinho de café aqui e ali. “Até 1996, boa parte da edificação ainda se mantinha razoavelmente preservada, mas tudo desabou durante um forte temporal”, diz o professor Dilson Gomes.

“O fato é que o setor floresta do parque ficou meio abandonado depois que a sede foi para as Paineiras em 2012”, diz o coordenador do IBAMA no Rio, Rogério Rocco. E antes que você pergunte o que é o setor floresta dentro de uma floresta, cabe a explicação. O Parque Nacional da Tijuca é dividido em quatro setores administrativos, e o Setor Floresta da Tijuca é um deles. É o setor mais antigo e o núcleo original de tudo: a reserva florestal criada por Dom Pedro II, onde ficam o Pico da Tijuca (ponto mais alto do parque, com 1.022 m), o Pico Tijuca Mirim, o Pico do Papagaio, a Cascatinha Taunay, a Cachoeira das Almas e o próprio Sítio Midosi, onde o major Archer morou. Os outros três setores são a Serra da Carioca (inclui o Parque Laje, as Paineiras e a Vista Chinesa), Pedra da Gávea/Pedra Bonita e a Serra dos Pretos Forros. “É o setor “esquecido” do parque, mais isolado geograficamente, entre as zonas Norte e Oeste da cidade, e menos consolidado como área de lazer”, explica Dilson Gomes.

“Mas o ICMBio lançou um programa de investimentos na ordem dos R$ 75 milhões em 5 anos e creio que o setor deverá ser privilegiado”, diz Rogério Rocco. Previsto para ser realizado em cinco etapas, o investimento prevê reformas na acessibilidade do Alto Corcovado, contenção de encostas e projetos paisagísticos para visitas monitoradas. Entre as novidades estarão a inauguração de duas novas atrações: a trilha “Paineiras-Corcovado”, com 1,15 km de extensão, e o mirante Cartão Postal, com vista panorâmica da cidade, construído com estrutura de vidro. O mirante será acessível pela nova trilha, que faz parte da “Trilha Transcarioca”, um percurso de 180 km que interliga seis unidades de conservação do Rio de Janeiro.

O major Archer deixou a administração da Floresta da Tijuca em 1874, quando foi chamado para tocar um reflorestamento semelhante em Petrópolis. Em seu lugar assumiu o Barão d’Escragnolle, até então ajudante de ordens do Duque de Caxias, que convocou um conterrâneo famoso, o paisagista Auguste Glaziou, responsável por obras como as do Campo de Santana, o Passeio Público e a Quinta da Boavista. 

Sob coordenação da dupla, a floresta foi transformada em um belo parque com recantos, áreas de lazer, fontes e lagos. “Eles introduziram plantas exóticas, como eucaliptos casuarinas e até as palmeiras imperiais que se vê por lá”, conta Dilson Gomes. O plantio teve continuidade nos anos seguintes e, associado ao processo de regeneração natural, formou a grande floresta existente hoje no Maciço da Tijuca.

Hoje, a preservação da antiga senzala do sítio Midosi importa por algumas razões que se somam. Ela é a prova material de uma história que quase foi apagada e contraria a narrativa de “obra do imperador”. A história oficial da Floresta da Tijuca sempre girou em torno de Dom Pedro II e do major Archer, um morro batizado com o nome de um, praças e placas em homenagem ao outro. A senzala é o contraponto físico, o lugar de quem carregou muda, plantou e sustentou o trabalho diário, sem receber crédito nem nome gravado em lugar nenhum por gerações.