TRÂNSITO: ASFALTO EM 2 TEMPOS

Motos são barulhentas, buzinam o tempo todo, cortam o trânsito, não respeitam sinal e causam acidentes

Luisa Prochnik

Em um canto da cidade, Pedro – ou Rosa, ou José – aguarda a entrega da pizza: a grande final do campeonato já vai começar, todos os amigos estão em frente à TV e nada da comida. Marina – ou Edmílson, ou Fernando – está sobre a moto com nem sabe quantas pizzas no bagageiro. Dia de decisão no futebol é dia de trabalho dobrado: aumenta o número de pedidos e a entrega tem que seguir o mesmo limite de 30 minutos. E se a pizza chegar fria ao cliente, lá vai aquela nota baixa no aplicativo. Dia seguinte à final, Arthur – ou Cleiton ou Vanessa – acordou mais tarde, atrasado. Em vez de esperar horas pelo ônibus e, depois, metrô, ele opta por contratar um mototáxi, cujo o motoqueiro se chama Pablo – ou Raíssa, ou Alessandro. Desde a pandemia, quando ainda fazia entregas sobre uma bicicleta, o piloto comprou uma moto e cumpre rotinas de 12 a 16 horas para manter as contas da casa pagas.

Motos são barulhentas, buzinam o tempo todo, cortam o trânsito, não respeitam sinal e causam acidentes, tanto para quem as dirige quanto para os outros cidadãos. Sim, tudo isso deve ser considerado. Mas, seja você Joana, Catarina ou Henrique, seja você mototáxi, médico ou funcionária do lar, a verdade é que a moto nas ruas é uma realidade e cada vez se torna mais e mais presente. Ou seja, o ponto aqui não é bom ou ruim, o debate tem que avançar: diante dessa realidade, que pode trazer números desastrosos em acidentes de trânsito e, ao mesmo tempo, agilidade na rotina da cidade grande, como melhorar a qualidade de vida de todos?

A busca por convivência nas vias encontra eco na voz de quem forma condutores. Ailton Moreira da Costa, o Lobão, instrutor de pilotagem na Autoescola Copa Sul, iniciou a pilotagem aos 10 anos de idade e transformou o gosto pelas motos em profissão aos 18.

– Bato na tecla da educação, pois é a educação que transforma. Nas autoescolas, passam pelos processos e estudos, mas vejo que muitos aprendem e acabam deixando de lado após a obtenção da CNH. Triste, mas creio que um trânsito melhor é com motoqueiros mais conscientes – ressalta.

Quem circula pelas zonas sudoeste e sul, reparam em cada vez mais faixas pintadas no asfalto no meio de duas pistas, formando um corredor para motos. A Faixa Azul, no Rio de Janeiro, foi inaugurada em agosto de 2024, na Autoestrada Lagoa-Barra, com uma extensão de 2 quilômetros. Ao contrário das demais faixas da autoestrada, onde carros podem rodar a até 80 km/h, o limite estabelecido dentro da motofaixa é de 60 km/h, monitorado por radares específicos. O limite da velocidade é um ponto importante de discussão em relação à adoção das faixas azuis.

O estudo “Avaliação da Faixa Azul: métodos mistos para políticas baseadas em evidência”, de Mateus Humberto, Mariana Novaski e Ezequiel Menezes, traz duas perspectivas distintas em relação às motofaixas. Por um lado, a faixa oferece pertencimento e visibilidade. Quem pilota sente que ganhou espaço diante dos carros. Essa divisão trouxe resultado prático: no meio dos quarteirões, as colisões caíram 33,1%. Por outro lado, a pista sem retenções estimula a velocidade. Drones registraram que 73% dos motociclistas excedem o limite na Faixa Azul, contra 14% nas pistas sem a sinalização. A pressa cobra o preço nos cruzamentos: com as conversões de veículos nas esquinas, as colisões subiram 33,5%, anulando a queda obtida no meio das quadras.

O gráfico destaca visualmente o paradoxo apontado pelo consórcio científico liderado pela USP, UFC e Vital Strategies: em condições de tráfego livre, 73% dos motociclistas que utilizam a Faixa Azul excedem o limite de velocidade regulamentado, enquanto apenas 14% ultrapassam a velocidade máxima permitida nas pistas comuns [10]. Esse dado ajuda a ilustrar com clareza o motivo de as colisões migrarem do meio dos quarteirões para os cruzamentos das vias (ver gráfico no BOX).

– Aos maus condutores, esses vão desrespeitar na faixa, fora da faixa, então vira uma questão de educação. Usar um benefício de todos para continuarem a transgredir as leis – observa Lobão.

COM A PALAVRA, OS MÉDICOS

“A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue, o sangue desses pacientes que chegam com lesões muito complexas”

“Esses pacientes precisam de  meses de recuperação e isso afeta toda a família.”

Dr. Marcelo Pessoa, Médico e coordenador do Centro de Trauma do Hospital Estadual Alberto Torres, São Gonçalo.

“A moto é o veículo que mais fere e mata no Brasil. Nós, como médicos, temos o dever de fazer alertas e apoiar campanhas de esclarecimento.”

Dr. Paulo Lobo, Presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

“Não estamos conseguindo realizar as cirurgias eletivas porque os leitos estão ocupados com os pacientes politraumatizados.”

Dr. Marcos Musafir, Diretor da Comissão de Campanhas Públicas e Responsabilidade Social da SBOT.

“Os acidentes com motos são hoje um problema de todo o Brasil, até em cidades pequenas há uma sobrecarga do sistema de saúde devido a esses pacientes.”

Dr. Estevam Rivello, Médico e 2º secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM)

“Uma das propostas da Abramet é que o acidente de trânsito seja um agravo de notificação compulsória. Ele é sinistro que precisa constar nos registros de saúde. Hoje há uma subnotificação muito grande.”

Dr. Antônio Edson Souza Meira Júnior, Presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) e conselheiro federal do CFM.

Fonte: CREMERJ News.

PRÓXIMOS PASSOS

São diversas as ações planejadas e realizadas pelo poder público e por conselhos de medicina. Desde as que comprovam a importância das motos na geração de renda para muitas famílias, como o Move Brasil – programa federal, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento, financia a compra de motos e bicicletas para entregadores e motoristas por meio de crédito da Caixa e do Banco do Brasil. Até as que pretendem mapear com mais profundidade a realidade dos acidentes sobre duas rodas e melhorar fiscalização e a punição, como a Abramet (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego), que defende a notificação compulsória de colisões no sistema de saúde contra a subnotificação, e CFM (Conselho Federal de Medicina) e SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia), que cobram a aplicação de leis, educação e simulações de resgate para motoristas.